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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

+ 3 para Ivo






Ivo Perelman fechou 2015 com o lançamento simultâneo de mais três álbuns. Com isso, fez desse um de seus anos mais prolíficos, encerrando o período com seis discos novos editados, todos pelo selo britânico Leo Records.



Parceiros que têm trabalhado ativamente com Ivo Perelman desde meados de 2010 marcam novamente presença aqui. Matthew Shipp, Mat Maneri e Whit Dickey foram convocados para essas sessões, registradas entre abril e julho de 2015. Uma coisa que se nota nessas gravações recentes de Perelman é a velocidade com que têm surgido e chegado aos ouvintes: é como se o saxofonista quisesse que sua produção atual em estúdio fosse apresentada com rapidez, ainda fresca. Complementary Colors, Villa Lobos Suite e Butterfly Whispers formam o novo conjunto de discos, que dialogam diretamente com o trio de álbuns editados em maio passado – podemos vê-los inclusive em pares.

Novo duo com o pianista Matthew Shipp, Complementary Colors se revela como uma extensão do genial Callas. Não apenas por registrar outro encontro entre os dois instrumentistas, mas pela sonoridade apresentada aqui e lá. Mais uma vez, o duo se reuniu no Parkwest Studios, no Brooklyn novaiorquino. A sessão de Complementary Colors ocorreu em abril de 2015; as de “Callas”, um pouco antes, em fevereiro e março, sempre com a gravação sendo conduzida por Jim Clouse. Logo na faixa de abertura, “Violet”, vemos a expressividade lírica explorada ao extremo em “Callas”. Mas vale frisar que, como em toda fértil sessão de improvisação livre, os ânimos dos músicos nunca são os mesmos e, consequentemente, cada álbum tem sua marca própria. O gatilho de Perelman aqui não foi o universo da ópera, mesmo que sua declarada inesperada paixão por Callas acabe por ter marcado sensivelmente sua sonoridade atual. Como indica o título, Complementary Colors é um passeio por uma palheta de cores. Isso não é pouco se lembrarmos que Perelman é, além de músico, pintor. Apesar de suas pinturas apresentarem muitas explorações em preto e branco, cores também surgem em sua paleta. E cada uma das cores presentes na pintura que compõe a capa do disco nomeia uma das faixas: “Yellow”, “Blue”, “Red”, “Green”, “Magenta” e “White”. A sequência das faixas traz a combinação dos tons, como se fosse um desenvolvimento expressivo do que se apresentou antes. Temos, então: a faixa 1, como “Violet”; a faixa 2, como “Yellow”; e a faixa 3, “Violet” and “Yellow”. E assim sucessivamente, até o fecho com “White”, que completa o conjunto, sintetizando essa colorida elaboração. Todavia, apesar de a estrutura final do álbum parecer altamente planejada, na realidade Perelman manteve seu esquema de nomear o trabalho apenas depois de concluído, o que pode ser surpreendente, dada a coerência interna que encontramos ao buscar compreender um pouco mais a lógica que conduz o registro.

Captado um mês depois, em maio, Villa Lobos Suite é um trio em que o sax tenor é acompanhado por duas violas, de Mat Maneri e de Tanya Kalmanovitch – com esta, Perelman trabalha pela primeira vez. Na safra anterior de discos, Perelman também apresentou um registro com duas cordas, “Counterpoint”, lá ao lado de Joe Morris (guitarra) e do próprio Maneri. Mas aqui o produto é distinto. Apesar do título, Villa Lobos Suite não traz nenhuma composição ou citação à música de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), como ocorreu duas décadas atrás, mais precisamente em 1994, quando Perelman entrou em estúdio com nomes como Naná Vasconcelos, Cyro Baptista e Guilherme Franco, sob o olhar de Gunther Shuller, e gravou “Man of the Forest”, explorando temas como “Veleiro”, “Rasga o Coração” e “Prelúdio nº1” em uma visada free. O Villa-Lobos no título é apenas uma homenagem ao grande compositor, importante para Perelman não apenas por sermos brasileiros; o saxofonista estudou muito Villa-Lobos quando era jovem e aprendia a tocar  violão e violoncelo. O álbum apresenta 10 temas relativamente breves, improvisações livres que oscilam entre três e sete minutos, e que formam partes de um todo, feitas para serem ouvidas sequencialmente – uma suíte, como indica o título. O irresistível tom camerístico que marca o registro, com as duas violas soando tão precisas que parecem estar sendo conduzidas por uma partitura, cria uma atmosfera completamente distinta da de Complementary Colors. E não apenas por se tratar de outros instrumentos: aqui o que temos é um outro universo expressivo.

O terceiro título, Butterfly Whispers, revela ainda uma outra face sonora de Perelman. Em trio, uma vez mais ao lado de Shipp e do baterista Whit Dickey, o saxofonista exibe sua voz mais áspera e impetuosa – parece mesmo que a bateria “esquenta” as exibições do músico. Esse formato de sax-piano-bateria foi explorado por Perelman pela primeira vez em “The Seven Energies of the Universe”, gravado em 1998 com Joseph Scianni e Jay Rosen. A ele retornou em “The Foreign Legion” (2012), com o próprio Shipp e Gerald Cleaver, e em “The Clairvoyant”, com o mesmo trio que vemos agora. Butterfly Whispers apresenta 10 temas – coincidência ou não, todos os três novos álbuns trazem 10 faixas cada – muito intensos. A primeira faixa, “Waiting”, sinaliza os rumos que conduzem o álbum, com oscilações de temperatura, mas sempre tendo um grau elevado como horizonte. Dickey, que soa idealmente pouco muscular, parece ir conduzindo Shipp e Perelman pelos temas que se desenvolvem como se permeados pelo ritimo da natureza, indicados por curiosos títulos: “Almost Spring”, “Wet Land”, “Pollen”, “Secret Garden”...  No segundo tema, “Plowed Field”, por exemplo, Dickey dita sugestivamente o ritmo inicialmente com o chimbal, como se comandasse a semeadura do campo. Mas essas conjeturas são meras divagações, considerando que Perelman nomeia suas peças apenas depois de registrá-las, sempre de forma improvisativa. O saxofonista diz que este trio não se trata do duo com Shipp mais um baterista. É um novo grupo, com novas propostas e soluções. E isso fica bastante claro se ouvirmos o quão diferentes soam os diálogos de Shipp e Perelman em Complementary Colors e em Butterfly Whispers. Sem dúvida, temos aqui um grande trio e um grande álbum.





COMPLEMENTARY COLORS  ****
Ivo Perelman/ Matthew Shipp
Leo Records






  


VILLA LOBOS SUITE  ****
Ivo Perelman/ Mat Maneri/ Tanya Kalmanovitch
Leo Records







 



BUTTERFLY WHISPERS   ****(*)
Ivo Perelman/ Matthew Shipp/ Whit Dickey
Leo Records









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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e música para o Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt. É autor das liner notes dos álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)