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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Selos para ouvidos inquietos




No universo da improvisação livre, do free jazzístico, do noise e cercanias é imperativo para artistas e produtores cuidarem de perto da música que fazem, criando formas próprias de registro, apresentação e distribuição. No Brasil, a realidade não difere e, nesse processo, os selos independentes se tornam personagens vitais.




A música mais inventiva e experimental sempre teve de encontrar seu caminho. Antes de o lema Do It Yourself ser associado à cena punk setentista, os músicos ligados ao free jazz e a free improvisation, ainda em meados dos anos 60, já tinham que fazer as coisas acontecerem por si mesmos, criando selos e organizando festivais para manter sua arte viva. Hoje, as maiores facilidades para fazer uma gravação com relativa qualidade e os atuais formatos digitais de distribuição, com plataformas como Bandcamp e Soundcloud, têm favorecido o registro e o desenvolvimento de músicas experimentais em todos os cantos e formas.
Focando as searas mais ligadas à música apresentada pelo FreeForm, FreeJazz, selecionamos alguns selos, de diferentes lugares do país, que têm ajudado a registrar – por meio físico ou virtual – um pouco do que de mais estimulante tem sido feito no espaço sonoro brasileiro.





QTV
(Rio de Janeiro)

Desdobramento do evento Quintavant, que surgiu no Rio de Janeiro há uns cinco anos focado em “música de improviso, ruídos, longas formas, estranhezas e afins”, o selo QTV já conta com 15 lançamentos, desde sua estreia em maio de 2014 com o álbum “Hey Babe”, do Baby Hitler. Desde então, editaram material de artistas como Bemônio, Chinese Coockie Poets e o intenso encontro de Eduardo Manso, Felipe Zenícola e Arthur Lacerda com Paal Nilssen-Love. Bernardo Oliveira, um dos nomes por trás do QTV, fala sobre o selo:

O QTV surge a partir de um círculo virtuoso dentro da Audio Rebel, o espaço que é nossa casa: temos um estúdio de gravação cabeado para a sala de shows; temos artistas cariocas com trabalhos originais e consistentes, que tocam, ensaiam, trocam ideia naquele espaço; temos técnicos e profissionais qualificados em diversas áreas, desde a gravação até a programação visual, desde a lutheria até a invenção técnica. O selo QTV é um dos produtos desse ambiente, talvez o mais importante.

*Sonoridades buscadas
As conhecidas e normalmente atribuídas ao gueto ‘experimental’: drone, música de ruídos, formas longas, improviso, baixíssimos e altíssimos volumes, trabalho com data, objetos. Mas são apenas rótulos. Acho um disco como Rainha, do DEDO, ultraespecial no que diz respeito ao trabalho com gravações e materiais destacados. Gosto muito também da parceria entre Cadu Tenório e Eduardo Manso, Casebre, certamente uma concepção bem particular do que vem a ser noise music. Mas também estamos abertos a sons que nós ainda não conhecemos, como foi o caso de Anganga, trabalho lançado por Cadu Tenório e Juçara Marçal, constituído por releituras noise-industrial de vissungos e cantos do congado mineiro.”  

*Edições
Até agora fizemos um pouco de tudo: digital; prensagem vagabunda; prensagem com faca própria, desenvolvida pelo Lucas; prensagem com jewell case e encarte; feito à mão em tiragem limitada a 30 cópias; vinil em parceria com o selo polonês Bocian Records. E agora estamos partindo pro Digipak com encarte, tanto de Anganga quanto de Niños Heroes. Para 2016. Na realidade, prensamos conforme a demanda e a situação.

*Repercussão
No caso de um selo é muito difícil trabalhar com a ideia de repercussão quando esta não incide diretamente na vendagem dos discos. Ainda mais quando esse selo resolve trabalhar com ampliação de expectativas, e não apenas a satisfação de demandas consolidadas. Nesse sentido, acho que nosso trabalho é o de divulgar essas sonoridades, de agitar o espaço sonoro brasileiro, de trazer outras frequências, volumes, timbres, linguagens e formas de resistência e criação — assim como o de outros espaços, selos e coletivos em que os artistas são produtores, como o Estúdio Fitacrepe, a Desmonta e a Seminal Records, entre outros.” 








ZUMBIDOR
(Santo André/ SP)

Criado pelo baterista Flávio Lazzarin (Otis Trio, Flac, Giallos) em 2010, o Zumbidor tem tido a função de registrar e distribuir basicamente os sons desenvolvidos pelo músico e seus parceiros. Após os primeiros títulos terem saído em CD artesanal, o selo tem agora focado os lançamentos apenas em versão digital, para ouvir e baixar. Lazzarin conta um pouco dessa história:

O zumbidor nasce de uma vontade/necessidade de gravar os impros e algumas composições esquisitas que estavam surgindo naquele momento. Eu havia descoberto o ebay e acabei adquirindo uma plaquinha de som e 3 mics, sempre gostei muito do universo das gravações/estúdios, aí resolvi começar a registrar o que a gente estava fazendo... fiz um blog no wordpress e ali nascia o Zumbidor. No começo tudo o que era feito e registrado eu já fazia uma capa e subia. Hoje resolvi mudar um pouco essa história. Para mim ficou difícil deixar o ZBR especialmente para o free/impro, eu acabo fazendo muitos tipos de música com diversas bandas autorais, e vivo intensamente tudo isso. O Zumbidor acabou ficando com a responsabilidade de agrupar todo esse material que é gerado pelas bandas que participo.

*Catálogo
No começo, o Zumbidor tinha essa ideia de lançar vários artistas, como um selo mesmo. Mas, como faço muita coisa musical durante os dias, acabou ficando inviável a produção de sons de outros artistas, ou seja, o Zumbidor acabou que virando um selo bem pessoal... No momento, estou apenas lançando materiais em que eu participo. Apenas porque é assim que estou conseguindo fazer...

*Edições
Esse é um ponto que está bem desorganizado. A ideia é voltar a lançar os cassettes limitados e voltar a lançar os CD-Rs com preço mais acessível... Camisetas, posters... Coisas que eu gosto muito de produzir.







ESTRANHAS OCUPAÇÕES
(Recife)

Projeto de Yuri Bruscky, o Estranhas Ocupações está na ativa desde 2010. O catálogo busca abranger registros de “noise, improvisação livre, eletroacústica, propostas conceituais e poesia sonora”, desenvolvendo, além de discos, publicações, objetos, registros de performances, vídeos, dentre outras possibilidades. 

O Estranhas Ocupações foi criado por mim (Yuri Bruscky) primeiro como uma organização pra articular concertos, distribuição de materiais etc, e posteriormente como selo. Ao contrário do que ocorre em selos e editoras comerciais, em que critérios como rentabilidade e expansão de mercado consumidor são cruciais para determinar a circulação ou não das produções culturais, eu me pauto inteiramente na ética do ‘faça você mesmo’, em que todas as etapas produtivas se dão sem esse tipo de controle, contando apenas o meu entusiasmo de aficionado, sem ingerências externas – comerciais, institucionais etc. Para mim, os selos independentes são campos de mediação ligados a uma rede de comunicação tecida entre sujeitos com interesses afins, estruturando espaços de articulação a partir dos quais se cartografavam as vivências, experiências e atividades realizadas por determinados artistas ou em uma dada região, e que, salvo alguma curiosidade aqui e acolá, despertam pouco ou nenhum interesse fora desse circuito de afinidades.

*Edições
Todos os lançamentos do selo são ‘físicos’. As versões digitais são disponibilizadas como forma de difusão. Em 2016, pretendo manter o foco em Cds, vinis e fitas, além de incrementar o lançamento de publicações (fanzines, catálogos, brochuras etc), com ênfase na produção experimental latino-americana.
Sendo um selo mantido por uma única pessoa e considerando minhas limitações financeiras, a lista de lançamentos ‘em espera’ só tem aumentado. Digo, de artistas com os quais eu tenho interesse em trabalhar em projetos de edição, mas ainda não tenho os fundos para tanto. De todo modo, é importante estar aberto à possibilidade de novas escutas e ao intercâmbio de referências com outras pessoas. Sendo um selo feito por e para aficionados, essa é uma parte extremamente relevante de tudo isso.







SEMINAL RECORDS
(Belo Horizonte/ Rio/ Curitiba)

O Seminal Records surgiu, em 2013, como um projeto de músicos com interesses afins, sendo atualmente formado por seis nomes. O selo conta com um catálogo, entre lançamentos e relançamentos, de quase 20 títulos, em searas como free improvisation, noise, eletrônica e eletroacústica. Marco Scarassanti, um dos colaboradores do projeto, fala sobre:

O selo é uma iniciativa de alguns compositores e músicos com interesses em divulgar a cena da música experimental brasileira. Ele começou a partir de um interesse comum e algumas conversas paralelas. Mas de verdade, quem foi o principal articulador foi o Henrique Iwao, que juntou num e-mail algumas das pessoas com quem ele tinha conversado sobre o assunto. Nessa convocação primeira, a ideia era a criação de uma editora de música/textos sobre música/ blog + uma gravadora de música experimental (com ênfase em produtos físicos). Do grupo inicial, quem respondeu prontamente foi o J-p Caron, que também é um dos mais ativos participantes, junto com o Henrique. Participam desde o início também o Matthias Koole e o Ale Fenerich. Recentemente se juntou a nós a Sanannda Acácia. O selo não tem fins lucrativos, apenas o desejo de lançar e relançar trabalhos representativos dessa produção instigante e diversificada, mas que não tem muita circulação. Na verdade, gosto de pensar que o Seminal Records é um projeto de composição, em que se desenha a partir dos lançamentos, relançamentos, novas propostas, escolhas e ações em torno do que é lançado.

*Seleção e repercussão
Normalmente convidamos as pessoas que gostaríamos de ouvir, mas aceitamos propostas e sugestões sim, desde que estejam alinhadas ao caos do selo. A gente pede pros interessados escutarem o que tem publicado pra que conheçam, desistam ou encarem produzir. 
“Pouco a pouco tem repercutido. A Oro Molido, da Espanha, gostou muito e nos procurou, deve sair algo em março de 2016. Por aqui, saíram algumas resenhas e a ideia é organizarmos alguns festivais e encontros do selo, como é o BHNoise.







MANSARDA RECORDS
(Porto Alegre)

O Mansarda é um dos mais produtivos selos em atividade. Surgido em 2012 de uma parceria entre Diego Dias e Gustavo Bode, o selo já conta com 68 lançamentos, isso porque se foca em projetos de seus criadores e músicos próximos. Segundo Diego Dias:

Fazíamos algumas sessões e queríamos ter total controle sobre nossas gravações. Em 20 meses lançamos 50 discos, nossos e de pessoas ao nosso redor que foram surgindo, interessadas em free improv/ free jazz/ experimental. Em 2014, diminuímos o ritmo, mas chegamos ao lançamento 65. 2015 foi um ano parcimonioso. Recentemente lançamos o disco de número 68, ‘Ostracismo’, um de meus vários duos com Michel Munhoz.
Os lançamentos da Mansarda ocorrem somente por convite. No passado, avaliamos algumas sugestões de amigos próximos, que renderam ótimos resultados, mas nossa ideia é mantermos fechada mesmo.

*Repercussão
No início, a Mansarda tinha milhares de downloads, que foram baixando com o tempo. Também, lançávamos 25 discos ao ano, fazíamos bastante barulho! Fomos diminuindo a intensidade de lançamentos e divulgando apenas em nossa página na internet.  Não recebemos muitas resenhas e temos pouquíssimo feedback... Desmotiva um pouco, mas seguimos.  Ornette dizia ‘Esta é a nossa música’, e acreditamos nisso. Quem segue a página recebe as atualizações, e pode ouvir tudo gratuitamente. A Mansarda continuará em 2016, com alguns lançamentos, apenas. Coisas mais focadas, específicas. Temos um bom catálogo para  ser explorado, música  para se retornar e ouvir de novo!




SUBMARINE RECORDS
(São Paulo)

Desenvolvido por Frederico Finelli, que também comanda a produtora Norópolis, o Submarine iniciou suas atividades em Belo Horizonte em 1998. Depois, se estabeleceu em São Paulo. Dando preferência por lançamentos físicos (CD, vinil), o selo conta com mais de 30 títulos editados, dentre diferentes projetos ligados a nomes conhecidos como Rob Mazurek e Guilherme Granado. Conversamos com Finelli:

A ideia sempre foi colocar na rua lançamentos de bandas do cenário independente musical que eu gostasse, sem se preocupar e nem saber exatamente sobre mercado e essas coisas. Na época começou com uma coletânea com bandas nacionais e algumas internacionais dentro do universo que circulávamos e ouvíamos (punk rock, hardcore, post punk, lo-fi...). Daí, na virada de 98/99, conheci o Hurtmold, que estavam divulgando uma fitinha cassete e a gente se conhecia (devido a relações de amigos, shows, fanzines etc) e iniciamos um corre, e nessas estamos juntos até hoje. Nesses quase 18 anos de selo são mais de 30 títulos e agora temos mais 4 para lançar no início do ano que vem. Estou sempre ouvindo o material que chega pra mim e também vou atrás de conhecer uma coisa ou outra que me chama atenção, mas no geral tenho trabalhado com bandas dentro da órbita Submarine Records/ Norópolis. Mas, por exemplo, o Elma entra nesse exemplo de banda que não estava necessariamente na órbita, conheci, fui ouvindo mais, vendo shows e quis lançar o álbum deles.

*Edições/ formatos
Tenho um registro lançado totalmente digital, um EP do Bodes & Elefantes chamado ‘Out Takes’, de 2008. Lançei e disponibilizei totalmente gratuito.... inclusive com a capa pra quem quisesse imprimir etc... foi legal a experiência, muitos downloads. Mas não tenho muito interesse em lançar puramente digital, acho que nesse formato/plataforma, mais do que nunca, os próprios artistas, bandas, produtores podem lançar né... tá tudo mais na mão. E eu enquanto selo gosto muito do registro físico... vinil, cd, fitinha cassete... encarte, artes... o digital realmente não me causa. Daí é isso, lanço o físico e disponibilizamos o digital, pra venda ou pra baixar... mas não tenho mesmo vontade de lançar somente digital.”  








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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado na área literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e música para o Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)