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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

David S. Ware resgatado: Birth of a Being

A AUM Fidelity anunciou que lançará no começo de novembro uma nova edição do primeiro álbum assinado pelo saxofonista David S. Ware (1949-2012), Birth of a Being.  A reedição será um CD duplo, que trará, além do álbum original lançado pela hatHut Records em 1979, um disco extra, com peças inéditas registradas na mesma sessão. Esse é um importante resgate do trabalho inicial de um dos maiores saxofonistas já ouvidos.



É possível encontrar o nome de David S. Ware no crédito de diferentes álbuns registrados durante a década de 1970 (mas praticamente tudo está fora de catálogo). Ele mesmo, como líder, estreou nesse período. Nascido em 1949 em New Jersey, Ware migrou para Nova York no fim dos anos 60 e teve a oportunidade de vivenciar a cena loft da década de 70 na vitalidade de seus vinte e poucos anos.
(by Gianmichele Taormina)
Os primeiros tempos em NY foram de associações com músicos pouco conhecidos, que acabariam por desaparecer da história do free jazz. Basta ver o primeiro registro que conta com o nome de Ware no saxofone: “The Third World”, disco do obscuro sax alto Abdul Hannan, lançado em 71. A próxima parada seria mais uma participação em um registro esquecido, “Monism”, disco de 73 do também sax alto Milton Marsh, no qual Ware participa de uma faixa. Mas, nos anos seguintes, Ware se uniria a músicos de maior expressão. Essa ligação começa com o baterista Andrew Cyrille, antigo parceiro de Cecil Taylor já com nome sedimentado no meio nesse período. O baterista, após ouvir Ware em uma gig em algum dos lofts que povoavam a cena de então, o convidou para tocarem juntos em 74. A sintonia fez com que Ware fosse recrutado para o grupo que o percussionista havia montado, o “Maono”. Ao lado de Cyrille, o saxofonista gravou Celebration (75), Junction (76) e Metamusician’s Stomp (78). Os dois aparecem juntos também na mítica coletânea “Wild Flowers” (que reuniu apresentações de diversos grupos no studio-loft RivBea, de Sam Rivers, em maio de 76). Sua parceria com Cyrille o levou até a Unit de Cecil Taylor. Entre 76 e 77, Ware excursionou com o pianista, período do qual ficou um registro oficial, “Dark to Themselves”. Os bateristas William Hooker (“...Is Eternal Life”, de 77) e Beaver Harris (“African Drums”, de 77) foram outros com quem o saxofonista gravou naquela década.    

Ainda antes dessas associações todas, no final dos anos 1960, Ware havia conhecido o jovem pianista Cooper-Moore (Gene Y. Ashton na época). No início da década de 70, os dois formariam o grupo Apogee, para o qual também entrou o baterista Marc Edwards. Esse trio tocaria junto por vários anos, adicionando às vezes o convidado Chris Amberger no baixo. No começo de 73, o Apogee teve sua primeira oportunidade de aparecer: abriram para Sonny Rollins no Village Vanguard. Mas, talvez pelo fato de o trio ter que trabalhar com outros esquemas para sobreviver, o desenvolvimento do Apogee até o disco de estreia demorou um tempo razoável. A oportunidade surgiria apenas em 77. E o que era para ser um aguardado momento festivo, acabou por representar o fim do trio e da parceria entre Ware e Cooper-Moore. As gravações do primeiro disco do Apogee ocorreram em 14 e 15 de abril de 1977. O disco sairia somente em 79, pelo conhecido selo hatHut Records. O título do álbum: Birth of a Being.

Apesar de ser um projeto do trio Apogee, a gravação de Birth of a Being acabou por sair creditada como um álbum de David S. Ware, o que faz com que historicamente seja seu primeiro trabalho como líder. Cooper-Moore, idealizador do Apogee com Ware, não se conformou com a situação. Seu testemunho:

Apogee started in 1970 and ended when we recorded Birth of a Being in 1977. I raised the money to make the recording, U$ 1.500 or so. David Ware took it to Hat Hut and sold it for U$ 500 under his name, not the name of the band. The explanation was that the owner of the company wanted it that way. This, of course, upset me [because] to me Apogee was a collective...”.


Após esse imbróglio, Cooper-Moore se afastaria de seu antigo parceiro por muito tempo. Talvez por isso o disco jamais voltou a ser reeditado, ressurgindo só agora, três anos depois da morte de Ware, além de não fazer parte da discografia completa que consta no site oficial do saxofonista. Os dois instrumentistas voltariam a trabalhar juntos em 2010, excursionando e gravando. Como forma de minimizar esse erro, a nova edição de Birth of a Being contará com o nome do trio Apogee na capa.

Polêmicas à parte, Birth of a Being traz Ware já em sintonia com o universo que marcaria sua obra nas décadas seguintes. As quatro faixas do álbum mostram o quanto a sonoridade de Ware já estava bem demarcada; o som wareano, que seria plenamente explorado mais à frente com seu quarteto, já pode ser captado com nitidez. A forma de abrir com um tema repetitivo e depois deixar a música se perder, que marca a obra de Ware, já está presente (ouçam “Thematic Thomb”). Mais explícita também está a linhagem ayleriana, no sopro ácido-lacrimoso de “Prayer”. O conjunto é completado com duas versões de "A Primary Piece". O disco pode não ter sido originalmente concebido para ser a estreia de David S. Ware como líder, mas é incrível como soa como uma peça legítima sua, perfeita para a abertura de sua essencial obra.






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*o autor:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura, tendo se especializado na obra de António Lobo Antunes. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre literatura e música para o jornal Valor Econômico. Também colabora com o site português Jazz.pt