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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Luís Lopes: "Sou um apaixonado pela criatividade em si"

A cena free/jazzística portuguesa está entre as mais ativas e interessantes da Europa na atualidade. Muitos músicos de ponta e projetos inusitados têm feito do país celeiro de grandes sons contemporâneos. O guitarrista Luís Lopes é uma dessas figuras de destaque, que tem brindado os ouvintes com maravilhas como o seu grupo Humanization 4tet, que mantém ao lado de Rodrigo Amado e dos irmãos Aaron e Stefan Gonzalez.
“Sou um apaixonado pela criatividade em si. Independentemente da linha estética. Observei, interiorizei, e continuo a interiorizar, ideias de todos os lados e mais alguns, sempre de espírito aberto, sem preconceitos”, disse Lopes ao Free Form, Free Jazz. Para saber mais sobre seu trabalho e projetos, confiram a entrevista*.





FF: Você começou a tocar guitarra na adolescência, tendo o rock como foco. Como chegou ao jazz e à música improvisada?

Como muitos adolescentes portugueses, comecei a tocar guitarra no liceu, com amigos, por volta dos 14 anos. Apenas para curtir. Não pensava desenvolver muito. Depressa, pelos 17 anos, comecei a agrupar-me em bandas de rock para tocar e construir as nossas próprias músicas. Queria rockar! Electricidade! Nessa fase ouvia muito punk, hardcore e metal. As bandas eram viradas para esse estilo, embora muito eclécticas, mas essencialmente isso. Gravámos umas maquetas, fizemos uns concertos, etc. nada de especial. Depois, por volta dos 23, estava doido com bandas como os Led Zeppelin, Doors, Jimi Hendrix, Deep Purple, Black Crows, Primal Scream, etc. esse tipo de rock'n'roll. Fiz umas bandas de covers, andámos para aí a rodar pelos bares, e foi só curtir, até me fartar é claro! Atrás vieram também os Blues. Passei anos a sacar as malhas dos heróis do blues guitar, e a tocar pelos bares de Lisboa e arredores.
Ao mesmo tempo comecei a ouvir jazz e blues em casa do meu tio, onde ia passar férias. Ele tinha milhares de discos, também de música clássica/erudita. Era um apaixonado pela música e arte em geral, livros também. Levava-nos também ao domingo à Ópera,  Música Clássica e Ballet Clássico e contemporâneo, o que foi também um forte complemento. Ele ouvia nessa altura também muito jazz, e como todos os amantes desta música, só queria que nós ouvíssemos o que estava a ouvir. Por vezes oferecia-me alguns discos. Nessa altura não tinha dinheiro para comprar discos. Levava um gravador de cassetes para casa dele e passava os dias a gravar. Estava completamente apaixonado pelo Jazz. Inscrevi-me então na escola de Jazz do Hot Clube Portugal, por volta dos 21 anos. Fiquei apenas um ano, pois queria era rockar! No entanto, mais tarde voltei para a escola de jazz e por lá estive mais 3 anos. Nessa altura arranjei um trabalho em part-time na secção de Jazz da loja de discos da Megastore da Valentim de Carvalho para pagar os estudos que eram uma fortuna para mim. Por lá tive contacto com um universo tremendamente maior do que alguma vez imaginei, incluindo o da música improvisada concreta. Conheci então músicos ligados a esta música, incluindo o saxofonista Joe Giardullo, que me passou informação gigante que complementou a matéria aprendida na escola, que era muito pouco, fraquíssimo! E pronto, aí estou ao lado de outros companheiros mergulhado até ao pescoço nesta música maldita.


FF: O recém-lançado “Noise Solo @ZDB” apresenta você sozinho em registro noise, como indica o título. Esse gênero é importante em sua formação como ouvinte ou o interesse pelo noise é algo mais recente?

Penso que talvez seja uma ligação com a música pesada que ouvia na adolescência, e depois com a mais psicadélica e sónica de mais tarde. O punk/hardcore, o metal, os Hakwind, os Can, os Led Zeppelin, também os Velvet Underground e os Bauhaus, etc. Claro, agora com outra perspectiva. Não sei bem! Só sei que a improvisação através da exploração sónica da imprevisibilidade do feedback me fascina! Esse jogo entre mim e essa quase total imprevisibilidade do disparo sonoro de feedbacks é uma viagem impressionante. O volume de som é tremendo. No máximo! De repente tudo se transforma numa enorme fusão homogénea entre mim, a guitarra, o amplificador, os pedais, o som e público também. Tudo num corpo só. Quando funciona é brutalíssimo para todos. Para isso é preciso o triângulo performer-som-público/ambiente constituir um triângulo equilátero perfeito. Pois, depressa descobri que nenhum desses pólos pode ser mais forte ou mais fraco do que os outros, e isso é que é um desafio maravilhoso: perceber que estás a lidar com algo que não dominas completamente, uma espécie de ser aglutinador que te engole em três tempos se não forçares também. E depois, uma coisa muito curiosa, que é sentir que me alieno de mim próprio e me junto ao público para ver a minha própria performance. É muito interessante. Daí o público fazer parte do triângulo, pois, dessa forma, o público “sou” também “eu”. E depois disso, é ouvir o resultado por fora, em disco, baixo ou alto, não interessa, musica apenas!




FF: E seu novo selo, o LPZ Records? Vinha encontrando dificuldade para publicar seus projetos ou o que motivou sua criação? O selo é aberto também a trabalhos de outros músicos?

A partir de uma certa altura comecei a pensar que seria importante para mim criar uma editora pessoal, apenas para lançar coisas muito específicas relativamente à minha música. Peças únicas, como este disco. Pensei que seria bom abrir essa perspectiva de futuro. Uma coisa minha, de autor. Óbvio que tudo isto é feito segundo um misto de planeado com ingenuidade total. Mexe com montes de factores: capacidade financeira, resultados financeiros, saída/distribuição, imprevisibilidade do futuro relativamente a esta indústria, concretização de projectos discográficos, realização pessoal, etc. Ideia válida? O que é facto é que avancei e estou muito feliz. E com a certeza, pesando todos estes factores, que a LPZ Records está virada só e apenas para peças pessoais, muito íntimas, independentemente da configuração do projecto, solo, duo, trio, quarteto, etc. Não está aberta a projectos de outros músicos, não tenho capacidade nem interesse nesse sentido, a não ser que fosse no sentido associativo, é claro. À parte disso, vou sempre trabalhar no sentido de concretizar projectos discográficos, e com isso tentar arranjar portas de saída editoriais, que são as editoras. Isso é inevitável!


FF: O "Humanization 4tet" é seu projeto mais destacado e, para mim, o mais empolgante. Queria que falasse um pouco sobre a história do grupo e o que estão planejando de novo.

Conheci os irmãos Aaron e Stefan Gonzalez em 2007. Andava na altura à procura de uma solução de banda para gravar uns temas que tinha vindo a compor, coisas simples. Um grupo com matriz no Jazz, mas com gosto pela aventura, sem aqueles tiques académicos pindéricos, que não me interessam a mínima. Estavam em Lisboa a tocar com o Dennis Gonzalez, seu pai, no Yells at Eels, uma espécie de work’n’progress trio que joga em casa. Nessa noite, eu e o Rodrigo estávamos a tocar com o saxofonista grego Floros Floridis e depois fomos todos ver o concerto deles. E levámos os instrumentos. O Dennis, gentilmente, convidou-nos para tocar um pouco com eles. Houve química, boa vibração, uma energia muito positiva e uma enorme e intensa comunicação emotiva. Adorei os irmãos Gonzalez, a sua forma criativa e orgânica de tocar. Assim como o Rodrigo, têm uma bagagem considerável, em todas as frentes. Forte noção relativamente à história e património do Jazz e à(s) música(s) improvisadas, de raiz e direcção criativas. Falámos muito também, partilhámos emoções fortes. Foi uma noite linda! Eu já conhecia o Rodrigo Amado, fazemos parte do mesmo circuito lisboeta. Tínhamos agora em secção rítmica os irmãos Gonzalez, para desenvolver.
De lá para cá gravámos três discos, o primeiro pela Clean Feed, e os outros dois pela Ayler Records, várias pequenas Tours em Portugal e duas Tours on the road pelos EUA. Penso que este ultimo disco “Live in Madison” dita literalmente aquilo que são os Humanizariam 4tet. Foi um disco gravado ao vivo no final da ultima tour americana, de cidade em cidade, durante quase um mês, a viver ao segundo com toda a intensidade as mais espontâneas e incríveis experiências e os momentos mais maravilhosos, surreais e inesperados que se pode imaginar. Numa carrinha apertada com 5 pessoas, carregada de material, sacos de discos, e emoções ao rubro. Cada paragem, cada cidade, uma nova aventura. E ainda por cima na aglutinadora América real. Só visto. E com isso ir construindo música, e laços de amizade e intimidade fortíssimos. We’re brothers! Neste momento o Humanization 4tet tornou-se parte das nossas vidas e será sempre inesquecível para nós. Com a mais valia de termos sempre connosco na estrada um quinto elemento, o fotógrafo António Júlio Duarte, que é um luxo!


FF: É clara a importância da composição como elemento da sonoridade do Humanization 4tet. O quanto o trabalho de composição interessa você? Se considera mais forte como compositor ou improvisador?

São duas coisas distintas. Não penso se uma coisa é mais importante para mim do que outra, ou se sou melhor numa ou noutra. Penso que terei sempre vontade de fazer composição. A minha composição até aqui tem andado à volta de ideias simples, por vezes vem de regras da harmonia complicada, mas são sempre simplificadas, por vezes apenas motivos para servir de referência para improvisar, livremente, mas com uma certa direcção. Tenho sempre ideias de composição a proliferar na minha cabeça, ideias por vezes muito complicadas, mas realizo sempre que preciso de tempo e serenidade para as concretizar. Mas sim, está sempre tudo em aberto, desejo muito fazê-lo! Entretanto, nesta altura do campeonato, neste estágio civilizacional relativo ao universo criativo, penso que a questão da composição é muito ampla. Pode não ser apenas uma questão de notas, jogo tonal, e/ou sua organização matemática no tempo. Pode-se confundir até com a improvisação, pode ser apenas um esquema relativo a um percurso traçado/organizado, constituído por diversas áreas, de improvisação e composição, intercaladas entre si, confundindo-se até. É muito complexo. O Rodrigo Amado, por exemplo, é um músico que objectivamente confunde a improvisação e a composição. Baralha e desafia estes dois conceitos de uma forma que aponta para o termo “composição em tempo real”. Músicos como o Anthony Braxton abriram para sempre portas que nos oferecem possibilidades imensas. Por exemplo, uma coisa muito interessante para mim, desafiar as regras da física através da Música, nomeadamente, as regras do Tempo como o conhecemos, passado, presente e futuro – o que podemos chamar de pós-ciclo musical coltraneano, ou seja, a distância entre um ponto, presente, que se torna imediatamente passado, em direcção a outro ponto, futuro. O que fica no meio, entre os dois pontos, é o tal universo omnirítmico e omnítemporal construído e dividido da maneira que tu quiseres, até ao infinito, a ponto de te poder permitir parar o tempo no presente, desafiando assim as leis da física. Mais ou menos isto, é um pouco complicado, tem que se sentir isto! Vi o Braxton aqui em Lisboa, em agosto passado, que voltou para mais um concerto no Jazz em Agosto, da Fundação Calouste Gulbenkian. E senti tudo isso. No meio do concerto, de repente, descobres que estás algures “num tempo” sem princípio e sem fim, sem passado nem futuro, apenas presente – a imortalidade? São teorias incríveis que se podem encontrar, por exemplo, no livro do Stuart Broomer “Time and Anthony Braxton” que estou a ler agora.


FF: Sei que tem trabalhado em um novo projeto com o Hernâni Faustino e o Gabriel Ferrandini. Trata-se de um trio de improvisação livre? Já entraram em estúdio? Disco à vista?

Nós pertencemos ao mesmo círculo lisboeta. Tocamos muitas vezes juntos. Tocámos já também em trio, mas não se desenvolveu nada de especial, pois não havia disponibilidade naquela altura. Mas está sempre tudo em aberto. Nós temos uma sessão, por exemplo, em quarteto com o Elliot Levin de Philadelphia. Fizemos uns concertos, e estúdio também. Penso que seja uma sessão muito interessante. Está à espera de saída discográfica. Vamos ver. Está sempre tudo em aberto. Incluindo o tal trio Lopes/Faustino/Ferrandini!


FF: Em que outros projetos está envolvido no momento?

Tenho também a arrancar de novo para este ano o meu Lisbon Berlin Trio, com o baterista Christian Lillinger e o contrabaixista Robert Landfermann. Juntámo-nos em 2011 para uns concertos aqui em Portugal e Alemanha, e lançámos um disco pela Clean Feed (234), e agora, para 2014, temos em agenda mais uns concertos e pensamos também gravar entretanto mais um disco. Estive agora também em tour na Suíça com os Big Bold Back Bone, grupo constituído também pelo lisboeta Travassos nas electrónicas, e pelos Suíços Marco Von-Orelly no trompete e Sheldon Suter na bateria. Lançámos há pouco tempo o disco “Clouds Clues” pela editora Suíça Wide Ear (008). Pretendemos agora fazer mais uma tour de concertos por aqui em Portugal lá para outubro/novembro e ir para estúdio construir mais um disco. È um grupo com uma direcção e forma de funcionamento muito peculiar. Muito democrático. Construímos tudo numa base de brain storming de opiniões. É assim para os concertos, foi assim no estúdio para o primeiro disco. É uma questão de composição conceptual de ideias e ambientes específicos e bem concretos. Gosto muito de trabalhar com os BBBB. E estou muito satisfeito com o resultado. Tenho ainda pendente um duo com o saxofonista francês Jean-luc Guionnet. Temos gravações para sair, e talvez mais uns concertos. Vamos ver! Também mais uns projectos por aqui na cena lisboeta a nascer. Essencialmente é isso.


FF: Portugal tem hoje um grande número de importantes músicos ligados ao cenário jazz/free/impro, conhecidos na Europa e nos EUA. Como está a cena para os músicos, conseguem espaço para tocar regularmente e sobreviver apenas de música em Portugal?

A situação em Portugal está muito complicada! Estamos em queda acentuada. Este é, quanto a mim, um governo altamente CRIMINOSO! Estamos, na verdade, perante um modus operandi com caractrísticas, e estou a ser bondoso, que podemos identificar em outros que fizeram parte da história mais ou menos recente de Portugal e do Mundo. Assente na estupidificação e escravização da maioria da população em favor da elevação de uma classe iluminada de riqueza e poder intocável. É só ler livros de história, e ver, sem preconceitos, as semelhanças. Estes senhores pretendem eliminar em Portugal todos aqueles que sonham. Não só apenas com a arte e criatividade, mas com uma vida digna, com possíveis concretizações no horizonte. Pois não há nada pior do que não ter esperança. Não há nada pior que é ter medo do futuro! Esta “crise” pode vir a varrer grande parte dos artistas, que é o que nos interessa agora aqui para a nossa conversa. Pois sem apoios e portas abertas é impossível avançar e concretizar. Ou então pode mandar isto para tempos pré-século XX, onde só os aristocratas tinham possibilidades de evoluir para coisa erudita. Quanto é que custa a escola de música? Quanto é que custa um instrumento musical? Quanto é que custa ir aos concertos, comprar livros, pagar a internet, ensaiar, viajar, conhecer, etc. Quanto é que custa gravar um disco, que é muito pouco, tem que ser muitos, produzir, enfim, concretizar. Pois é isto mesmo, ou não é? Podes ter talento ou vocação, ou sonhar com, mas sem possibilidades, esquece! No entanto, todos estamos a tentar, nas mais variadas formas, adaptar e avançar. Temos por aqui, principalmente em Lisboa e Porto, gente com valor que está a tentar lutar para arranjar portas de saída e tornar a Europa e o mundo cada vez mais próximos, que ainda está, por incrível que pareça, muito distante. Pois isto por aqui é muito pouco, embora tenhamos uma cena com tamanho considerável para um país como o nosso. Temos músicos incríveis, e bastantes, em todas as áreas relacionadas com o Jazz e música improvisada, temos editoras com peso internacional como a Clean Feed, Creative Sources, Tone of a Pitch, entre outras. Temos público, e cada vez mais exigente! E ainda promotores que continuam a tentar, em esforço inglório, conseguir coisas.


FF: Na guitarra, se sente herdeiro de algum nome? O que foi mais relevante na formação da sua sonoridade: o blues, o rock, o (free) jazz...

Tenho muitas escolas. Nunca me fixei em nenhuma em particular mais tempo do que o necessário. Mesmo em relação aos guitarristas. O que é facto é que sou um apaixonado pela criatividade em si. Independentemente da linha estética. Observei, interiorizei, e continuo a interiorizar, ideias de todos os lados e mais alguns, sempre de espírito aberto, sem preconceitos. Desde que seja interessante, é claro. Tudo faz parte de uma esponja de absorção e construção de bagagem. É uma questão de armazenamento da minha biblioteca, prática e emocional, sempre no sentido de tentar perceber. O que é facto é que noto que depois vão aparecendo aqui e ali, quando menos espero, coisas e situações vindas desse património. Como naquele filme “Carlitos Way”, com o Al Pacino, em que aparece aquela frase “tu podes esquecer o passado, mas o passado não te esquece, persegue-te”. Hehehehe… adoro! Dentro da música posso-te dar alguns que me influenciaram com certeza. Temos os Dead Kennedys, Discharge, GBH, D.R.I, S.O.D, Metallica,  Anthrax, Motorhead, AC/DC, Doors, Black Sabbath,  Jimi Hendrix, Can, Hawkwind, Stooges, David Bowie, Lou Reed e os Velvet Underground, Bauhaus, Cure, Tom Waits, Patty Smith, Nina Simone, Betty Davis, Nick Cave, etc. Depois temos os blues como: Robert Johnson, Lightning Hopkins, Big Bill Broonzy, Lonnie Johnson, Buddy Guy, Albert King, Albert Collins, Freddy King, Peter Green, Stevie Ray Vaughan, etc, só para citar alguns. Alguma música do mundo. Não esquecer a tal música clássica (entenda-se, erudita) que com toda a certeza me marcou e espero vir a recuperar mais tarde. E depois, o Jazz e a música improvisada dos quais destaco: Miles Davis, Thelonious Monk, John Coltrane, Archie Chepp, Allan Shorter, Ornette Coleman, Don Cherry, Albert Ayler, Eric Dolphy, Charles Mingus, George Russell, Sun Ra, Steve Lacy, Anthony Braxton, Wadada Leo Smith, Joe McPhee, Cecil Taylor, Jimmy Lyons, Sonny Sharrock, Charles Brakeen, Charles Lloyd, Dennis Gonzalez, Julius Hemphill, Henry Threadgill, Sam Rivers, David S. Ware, Charles Gayle, Derek Bayler, John Zorn, Fred Frith, Noel Akshoté, Mark Ducret, Louis Sclavis, Jean-Luc Guionnet, Mark Ribot, Evan Parker, William Parker, Joe Morris, Rob Brown, Whit Dickey, Ken Vandermark, Neals Cline, Peter Brotzmann, Mats Gustafsson, Paul Nilssen-Love, Raoul Bjorkenheim, Otomo Yoshihide, Tim Berne, entre muitos outros, com novas vozes sempre a aparecer, sei lá, é muito!!!


FF: Que guitarra você usa? E pedais, são muitos?

Neste momento uso uma Gibson ES 340 de 1968. Não tenho muitos pedais agora. Apenas o WahWah Crybaby da Jim Dunlop, DD20 Digital Delay da Boss, um pedal distorção antigo PSK, que tenho desde os 17 anos, um BigMuff Fuzz, e, essencialmente, é isso. Mas sim, vou trocando conforme o projecto. Cada caso é um caso!


FF: Já teve oportunidade de visitar a América Latina? Tem algum contato com músicos brasileiros?

Gostava muito! Espero poder concretizá-lo. Tenho imensa curiosidade pelo Brasil! Penso que o Brasil em termos de riqueza em relação à música poderá ser muito similar aos E.U. Só que eles tiveram a hegemonia toda por razões que todos conhecemos. Ouvi sempre música brasileira, de várias escolas e estéticas, e sei que o que ouvi é apenas uma migalha do que existe. Infelizmente não tenho tido contacto com músicos brasileiros ligados a esta música que possam possibilitar uma coisa dessas, e os que conheço, como o Ivo Perelman, por exemplo, não vivem normalmente no Brasil. Gostava mesmo muito de fazer essa viagem!


FF: Para finalizar: que sons têm ouvido no momento?

Oiço sempre muita música. Nesse momento estou com uma certa dificuldade em comprar discos com regularidade, coisa que sempre amei fazer. No entanto, nestes dias tenho por aqui de recente o “Rebento”, do Red Trio (NoBusiness); o “Birthmark”, que tem o Rodrigo Pinheiro e o Hernâni dos mesmos Red Trio que se juntam à dinamarquesa Lotte Anker e que é uma maravilha; um disco em vinyl aqui de dois parceiros da cena lisboeta, que é o Pedro Sousa nos saxophones e electrónicas e o Pedro Lopes nos Turntables e electrónicas, que formam este grupo EITR e o disco chama-se “Trees Have Câncer Too” (Mazagran) e está muito bonito; o Joe McPhee a solo “Sonic Elements (Clean Feed); um quarteto polaco com o seu “Tone Hunting” (Clean Feed); uma coisa muito curiosa que é o Elliott Sharp em quinteto a tocar sax tenor, soprano e clarinete baixo; comprei há dias um Jemeel Moondoc Sextet “Konstanze’s delight” (Soul Note) que é incrível; e depois esteve cá em casa o Gerard Lebic, saxofonista polaco, que escolheu aqui uns quantos discos para ouvirmos que entretanto redescobri que é o Marshall Allen with Lou Grassi’s PoBand “PoZest” (Cimp); um disco em vinyl triplo do Alan Silva “and the Celestrial Communication Orchestra" (reedição da Byg Records Actuel) que é uma brutalidade; e uma coisa marroquina incrível: Hassan Hakmoun and Adam Rudolph, imagina com quem? Com o Don Cherry, com um ritmo diabólico, como só os marroquinos sabem fazer! E os brasileiros também!


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Fotos: Joze Pozrl (1); Carlos Paes (2)

*nas respostas, foram mantidas as particularidades do português lusitano