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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Matana Roberts: entre sons e imagens


Matana Roberts já disse que prefere ser lembrada como 'sound experimentalist' ou mesmo 'conceptual sound artist' do que como uma jazzista ou improvisadora. Quem teve a oportunidade de vê-la em ação neste fim de semana entendeu realmente o que ela quer dizer. Na noite de sábado, no CCSP, a artista de Chicago mostrou uma face de sua obra talvez menos exaltada, mas que tem tido peso relevante em sua produção atual. Integrando sax, voz e imagens, Matana exibiu a peça Ephemera: a solo sound and image exploration/excavation of blue(s) and blood(s), blood(s) and blue(s)..., com cerca de uma hora de duração, na qual, sozinha no palco, criou um inquietante painel polifônico.




‘Free People of Color’ (from Coin Coin Happenings)
Imagens seqüenciais e repetitivas em um telão; paisagem sonora ruidosa pré-gravada; o sax a improvisar a partir de fragmentos melódicos; e um intrigante jogo de palavras cantadas-faladas ao microfone (a destacar a frase “Black is the colour... of my true love's hair”, à qual se agregaram outras palavras entoadas ciclicamente pela artista, destinadas a ecoar por longo tempo em nossos ouvidos) foram os elementos utilizados por Matana para estruturar a perturbadoramente sedutora obra. Ora em uma mesa na qual conduzia a alternância dos sons pré-gravados, ora circulando pelo palco tocando seu sax, ora se esquivando para trás da tela, com sua sombra se misturando às imagens ou parando em frente ao microfone para cantar-entoar impactantes palavras: Matana fisga o público sinestesicamente, jogando com seus sentidos e absorvendo-o da percepção cotidiana. O caráter cíclico que marca cada um dos elementos de Ephemera (imagens e sons que retornam de forma ininterrupta, quase sufocante), que se desenvolve de forma coesa, sem se abrir ao infinito improvisativo (estrutura oposta aos concertos de sax solo que ela trouxe ao país em 2012), modula um campo hipnótico do qual leva-se algum tempo para se desligar após ouvir “My name is Matana Roberts, thank you very much”. Encerra-se a apresentação, mas mantém-se a tensão vibrando nossos sentidos.




Matana tem trabalhado com esse tipo de obra desde ao menos 2005 e é desse processo que brotou seu mais ambicioso e celebrado projeto: o work in progress Coin Coin. Sua abordagem para essas obras parte de um conceito que criou: o Panoramic Sound Quilting, que engloba idéias visuais, trechos musicais compostos, improvisação e palavras para armar um tecido sensorial que, partindo de fontes várias, alcança um todo organizado e envolvente. Em peças como Ephemera temos uma amostra sintetizada desse esquema. Já no caso de Coin Coin, com seus doze capítulos previstos, encontramos o processo em sua plenitude. Mesmo independentes, as partes de Coin Coin comporão um todo – Matana disse que espera um dia poder apresentar sequencialmente os doze capítulos, montando a completude de Coin Coin (“My hope is that one day I will be able to perform the entire narrative with the different ensembles as one large life cycle.”).

Após a impactante estreia de 2011, com Chapter One: Gens de Coloeur Libres, o projeto Coin Coin teve seu segundo episódio editado em outubro passado. Chapter Two: Mississippi Moonchile traz um trabalho realmente novo, coerente com seu antecessor, mas soando muito fresco.
Amparado nos pilares que têm inspirado Matana – a memória, a história e a amplitude da música afro-americana –, Mississippi Moonchile passeia por figuras do jazz, blues, gospel, free, além do cancioneiro tradicional, para estabelecer uma música de sabor único, fruto de um percurso que resgata e desconstrói as raízes imagéticas e familiares da artista para as utilizar como substrato na elaboração dessa obra singular. Interessante notar que a saxofonista e compositora optou por trabalhar neste segundo capítulo de Coin Coin com um grupo bastante distinto do primeiro episódio. Se lá estiveram presentes dezesseis músicos envolvidos em sua laboração, aqui temos apenas um quinteto, ao qual se junta um surpreendente cantor lírico – o tenor Jeremiah Abiah, que traz uma tonalidade mais dramática a passagens em que intervém. Dentre os textos cantados/declamados estão trechos do discurso da ativista Fannie Lou Hamer proferido na "Democratic National Convention", em 1964, em meio a melodias tradicionais e escritos da própria Matana, que têm em fragmentos de entrevistas com sua avó uma de suas inspirações.
Mississippi Moonchile apresenta uma sonoridade tão inquieta e abrangente quanto Gens de Coloeur Libres, mas mais coesa e aparentemente organizada, sem muitas explosões e ataques ruidosos, se desenvolvendo como uma suíte (subdividida em 18 partes) sem muitos sobressaltos.
Quem sabe em uma próxima visita de Matana Roberts ao país não tenhamos a oportunidade de vê-la conduzindo um dos capítulos do brilhante Coin Coin?