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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uma conversa com Ivo Perelman


Pouco antes de sua vinda ao país, onde toca no Sesc Pompeia no próximo dia 25, o saxofonista Ivo Perelman conversou com o Free Form, Free Jazz. O papo se concentrou mais em sua atual fase e projetos, considerando que sua trajetória é relativamente conhecida dos leitores deste espaço. De qualquer forma, segue uma breve introdução a quem ainda não foi apresentado ao músico.


Ivo Perelman nasceu em São Paulo em 1961. Começou a estudar música ainda criança, tendo aulas de violão clássico, piano, violoncelo, até chegar ao saxofone já na adolescência. Em 1981, ainda estudante de Arquitetura, Perelman resolveu tentar a sorte como músico nos Estados Unidos. Até sua estreia em disco, em 1989 com o álbum “IVO”, o saxofonista passou por diferentes lugares e contextos, tocando em bares, festas judaicas e hotéis para sobreviver. Uma de suas primeiras paradas nos EUA foi no clássico Berklee College of Music, em Boston, onde acabou por não se enquadrar na estrutura mais tradicional de ensino do local, largando as aulas antes de completar dois semestres. À frente, teria aulas particulares com Marty Krystall, Joe Allard e Evan Parker, passando temporadas em Los Angeles, Montreal e Europa, até se estabelecer em Nova York, onde vive há mais de duas décadas.
Entre seu primeiro disco e o ano de 1996, gravou álbuns no qual buscou travar um diálogo entre o free jazz e sonoridades brasileiras. Depois, foi cada vez mais adentrando a free improvisation, tocando e gravando com nomes centrais da cena (Rashied Ali, William Parker, Borah Bergman, Fred Hopkins, Andrew Cyrille, Marylin Crispell, Gerry Hemingway e outros tantos), universalizando sua música e estruturando uma obra que hoje conta com 45 títulos editados. Pela própria natureza de sua arte, Perelman demorou muito tempo para aparecer no Brasil. Veio tocar no país pela primeira vez apenas em anos recentes, fazendo depois algumas apresentações seguidas entre 2007 e 2010. Agora retorna com um quarteto formado ao lado de figuras fundamentais do free contemporâneo: Matthew Shipp (piano), Michael Bisio (baixo) e Whit Dickey (bateria).
Vamos à conversa com Ivo Perelman:




FF: Você tocou no Brasil pela última vez em 2010. Como é retornar agora com um novo grupo e em meio a uma de suas fases mais frutíferas?

A apresentação em 2010 contou com um público bastante sintonizado com o nosso trabalho musical, por isso a expectativa para esse próximo concerto é grande, tanto da minha parte quanto da dos músicos. Ainda mais porque o Matthew Shipp esteve  no Brasil naquele ano pela primeira vez, agora é o Michael Bisio e o Whit Dickey que nunca estiveram aí... É realmente uma fase produtiva a atual, com shows e gravações... depois dessa apresentação sigo com o Matthew para Londres e depois Moscou.


FF: Esse quarteto que vem ao Brasil gravou junto apenas um álbum, “The Edge”. Pelo que me recordo, o conjunto não chegou a tocar junto ao vivo. Apesar de a improvisação estar na base de seu trabalho, há algum planejamento sobre o que será apresentado no concerto em SP?

Não tocamos ao vivo ainda com esse quarteto, mas já toquei e gravei com eles separadamente em trios e duos em diferentes oportunidades. Portanto, nos sentimos muito à vontade com essa formação. A tônica do trabalho é essa mesma, de compor a apresentação em cima do palco, no momento do show. Essa disciplina tem criado uma tensão criativa muito benéfica e contribuído para ótimas performances desse grupo. O concerto será improvisado – composto instantaneamente, como prefiro dizer –, mas sempre como resultado direto do acúmulo de experiências das gravações feitas mais recentemente.


FF: Três novos trabalhos seus estão para sair, “One”, “Enigma” e a trilha do filme “Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa”. Gostaria que falasse um pouco sobre esses álbuns.

One: o Joe Morris  havia comentado que estava tocando em uma banda (Slobber Pup) com um baterista da Hungria, Balázs Pándi , que gostava muito do meu som. Eu fui ouvi-los no The Stone e fiquei impressionado com o que ouvi. Três dias depois, estávamos gravando o ‘One’ no estúdio, com o Joe fazendo sua estreia no baixo elétrico sob minha sugestão. A combinação dos músicos em ‘One’ ficou excelente, a pegada mais hardcore do Balázs, com o baixo free energizante do Joe me abriram um universo novo a ser explorado [ouça 'Freedom', abaixo].

Enigma: Eu já havia gravado sessões com os bateristas Whit Dickey e Gerald Cleaver separadamente em diferentes oportunidades com o Matt Shipp e comecei a imaginar como seria a sonoridade mais densa incluindo os dois  bateristas ao mesmo tempo. O resultado me surpreendeu e me fez tocar de uma maneira nova.

Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa: o diretor Gustavo Galvão me havia procurado  há uns quatro anos com a ideia de usar minha música em um filme seu. Eu aceitei o convite e chamei o Matt Shipp e o violista Mat Maneri – cujo trabalho com o pai, o saxofonista/carinetista Joe Maneri, eu já conhecia. Em uma segunda sessão para o filme, convidei também o Sirius Quartet. A música correu solta no estúdio, sem uma preocupação específica de adequar nossos estilos à temática central do filme. Conhecendo Shipp e Maneri, tinha certeza que de qualquer forma uma gama variada de climas cinematográficos surgiriam, desde que tivéssemos liberdade para criar. O Gustavo então selecionou os momentos mais pertinentes para o filme – um mix dos métodos do começo do século passado com a livre improvisação contemporânea.





FF: Uma nova fase em sua obra foi aberta em setembro de 2010, após a gravação de ‘The Hour of the Star’. Desde então, você reencontrou parceiros com quem apenas havia tocado nos anos 90 (Matthew Shipp, Joe Morris) e agregou novos nomes a seus projetos (Gerald Cleaver, Michael Bisio). Vai seguir criando com esse pessoal? Com que músico gostaria e ainda não teve oportunidade de trabalhar?

Há muito trabalho a ser feito ainda com esse time que possui um potencial que parece ser infinito. Um encontro recente particularmente feliz foi com o violista Mat Maneri [em ‘Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa’, que sai em breve pela Leo Records]. Sua  forma ‘saxofonista’ de tocar um instrumento de cordas me impressionou muito e posso assegurar que vários projetos resultarão futuramente dessa parceria. Eu ainda gostaria de fazer um trabalho no estúdio com o Barry Guy. Fizemos há alguns anos umas apresentações na Espanha na banda  do baterista Ramón López, com Agustí Fernandez e Joe Morris, que foram prometedoras.



FF: Matthew Shipp se tornou seu principal parceiro na fase atual. Como o caminho de vocês voltou a se cruzar após tantos anos [eles haviam gravado juntos apenas em 96]? Novos duos ou projetos com ele à vista?

Há alguns anos, eu e Joe Morris, em um tour pela Europa, conversamos sobre a possibilidade de formar  um quarteto com o Matthew Shipp e Gerald Cleaver. Já havia um bom tempo que não tocávamos ou mesmo que não nos víamos, especialmente depois  que me mudei do East Village, onde o Matthew ainda mora. Depois da primeira gravação [setembro de 2010], constatamos que esse período de afastamento e maturação nos fez muito bem. Temos muito material gravado ainda para ser lançado, em pelo menos mais dois volumes [de duos de sax e piano]. Tem sido uma feliz parceria musical que se transforma sempre e permite a adição de  convidados formando  variados  trios ou quartetos.


FF: Apesar de já ter trabalhado com artistas europeus e brasileiros, suas parcerias se concentram em músicos norte-americanos. Isso ocorre mais por uma questão geográfica ou de afinidades estéticas?

Toco principalmente com músicos norte-americanos (e não europeus ou brasileiros) mais por questões geográficas mesmo, morando em Nova Iorque... O jazz em sua linguagem universal só tem a ganhar com parcerias com músicos de diversos  países. Mas nesses anos todos já tive a oportunidade de tocar com diferentes europeus, como Ramón López, Barry Guy e Agustí Fernandez [no disco ‘Valencia’], toquei também com os franceses Louis Sclavis e Christine Wodrascka [em ‘The Ventriloquist’], os ingleses Paul Rogers, Elton Dean, Lol Coxhill, Mark Sanders, John Edwards, o celista holandês Ernst Reijseger, dentre outros.


FF:  Entre 2007 e 2010, você tocou no país ao menos uma vez ao ano, em diferentes contextos e locais. Desde então, deu para sentir uma mudança em relação à recepção de seu trabalho por aqui?

Houve uma grande mudança, uma maior receptividade e interesse. Quando saí do Brasil em 1981 o free jazz era pouquíssimo conhecido...


FF: Após as parcerias com Atração Fonográfica e Editio Princeps, que resgataram em edição nacional alguns importantes títulos seus, não tivemos mais, há já alguns anos, a oportunidade de ver seu trabalho lançado no Brasil. Há alguma negociação em andamento nesse sentido?

No momento não há nenhuma negociação para o lançamento dos meus Cds e não  planejo montar  um selo para isso. Mas tenho visto que com o iTunes e outros tipos de downloads, hoje o público pode acompanhar o trabalho de um artista  mesmo sem a presença física dos seus Cds, as coisas têm mudado..."


FF: Sei que pratica com diferentes instrumentos de sopro, há até alguns feitos sob medida, como o ‘trombivo’. Por que, mesmo assim, suas gravações e shows são concentrados no sax tenor? Não tem vontade de mostrar sua experiência com outros instrumentos ao público?

"Essas experiências que fiz com outros instrumentos de sopro foram mais a título de experimentação e estudo. Inclusive cheguei a estudar trompa por algum tempo para melhor compreender como pensam os músicos de metais e desvendar os mistérios da serie harmônica."


FF: Raras foram as vezes em que você dividiu espaço com outro reedman. Não gosta do diálogo com outros sopros? E a gravação, ainda inédita, que fez em com o Joe McPhee?

Gosto do díalogo com outros reedmen ou brassmen, mas o sucesso de uma performance depende de vários outros fatores além de apenas um bom diálogo... A personalidade da performance, o contour, a curva emocional coerente, a impressão da própria personalidade muscial de uma maneira cristalina se tornam  mais complexas quando há uma segunda voz dominante. Por isso, sou mais criterioso nos duetos. A experiência com o Joe McPhee, por exemplo, foi fantástica e deve sair em 2014. Recordo ainda que já gravei com o saxofonista e clarinetista francês Louis Sclavis [em ‘The Ventriloquist’] e também com o trompetista Herb Robertson [em ‘Valencia’, do Ramón López Sextet]."


FF: Não falamos ainda de Clarice Lispector, que tem pairado em torno de sua obra nos últimos anos... O ‘ciclo clariceano’ já se encerrou? Ainda anda envolvido com a literatura dela?

O ciclo clariceano chegou a seu fim! Tenho agora um livro do Origenes Lessa [1903-1986] aqui esperando para ser devorado... mas não creio que dessa vez teremos um novo ciclo.


FF: E seus projetos nas artes plásticas? Alguma nova exposição a caminho? Você que já expôs em São Paulo conseguiu manter contatos aqui, é possível adquirir uma tela sua no país?

Fiz uma pequena mostra em cerâmica pintada aqui no Brooklyn (NY) há um ano e no momento tenho feito apenas estudos em papel. Sim, a Galeria Aplicada me representa no Brasil e possui várias obras minhas à venda em seu acervo.


FF: O que o Ivo Perelman ouvinte tem degustado atualmente?

Tenho escutado mais rádio, com variados  tipos de jazz de  várias épocas, gosto de  um menu variado que passe  por todas as escolas e tendências.




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Agenda:

IVO PERELMAN 4tet

Quando: 25/8 (19h30)
Onde: Sesc Pompeia (Choperia)
Quanto: R$ 20 (inteira)