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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Três grandes saxofonistas, três concertos vibrantes


Três shows seguidos de três figuras maiores do saxofone. Três gerações, com propostas, histórias e sonoridades distintas. Quem esteve atento pôde presenciar no último fim de semana no festival Jazz na Fábrica facetas variadas da música intrumental livre contemporânea. Roscoe Mitchell, figura lendária da free music dos anos 60, abriu os trabalhos com dois concertos solísticos, quinta e sexta. David Murray, que iniciou a carreira na cena loft jazz dos anos 70, tocou sexta e sábado. E Ivo Perelman, que fez parte da revitalização do free jazz na virada dos 80/90, fechou a sequência de intensas apresentações no domingo.


Ver Roscoe Mitchell em concerto solo foi uma oportunidade (e experiência estética) que deveria ter sido anotada na agenda como “obrigatório” pelos interessados em free music. Mitchell atraiu um bom público (claro que havia desavisados que abandonaram o espetáculo) e mostrou sua arte neste que é um dos formatos por execelência do free jazz e da improvisação livre: o concerto de sax solo. Mesmo com a vinda mais constante de músicos dessa seara musical para o país nos últimos anos, não tínhamos tido a oportunidade de apreciar algum dos maiores do instrumento se apresentando sozinho. Ao lado de Evan Parker, Anthony Braxton e Peter Brotzmann, o músico do Art Ensemble of Chicago é um dos maiores que desenvolvem há décadas a arte solística.      
Ao adentrar o palco, armado apenas com duas cadeiras (uma virada para cada um dos dois lados principais do circular palco do teatro do Sesc Pompeia), uma porção de instrumentos de sopro, uma garrafa d’água e uma estante com partitura, Roscoe deixou claro logo em sua entrada que a faceta teatral do AEOC não estaria presente. Discreto e concentrado, com um terno escondendo o corpo miúdo, o músico tirou o paletó, pegou o sax e começou a apresentação, simples e direto assim. Na sexta-feira, a peça inicial foi tocada em frente a uma partitura, em baixa intensidade que não desvelava a avalanche de sons que viriam, em crescendo, livremente improvisados, logo à frente. Trocando de instrumento e de lado de palco a cada tema – cerca de meia dúzia foram executados –, Mitchell exibiu sua técnica apuradíssima que chega ao esplendor quando empunha o sax soprano e abusa do sopro circular, criando camadas infindáveis, uma miríade de sons que desafiam e abalam as certezas de escuta. Uma arte que nasce e morre ali, durante aquela cerca de uma hora de concerto; uma arte que apenas pode ser degustada em sua plenitude ‘ao vivo’, vendo as ondulações do corpo, o arfar das bochechas, a ligeireza precisa dos dedos e um fôlego nunca ofegante de um senhor de 73 anos que consegue elevar a música a um campo metafísico: arte como expressão do que há de mais desafiador e inebriante na criação humana.



    

Em outro extremo esteve David Murray. Acompanhado de seu Infinity Quartet e tendo como convidada a diva neo-soul/r&b Macy Gray, Murray comandou noites eletrizantes, mas com uma música mais contida e organizada. Tocando para o maior público reunido no Jazz na Fábrica, Murray soube dosar as entradas de Macy, que permanece cerca da metade do show no palco, mantendo a apresentação sob sua batuta, apesar de a estrela ser ela. Sem dúvida, a maioria dos presentes foi para assistir a cantora e não faltaram reclamações do tipo “mas ela cantou pouco...”. Isso, no entanto, foi fruto de má informação, que deve estar acompanhando o saxofonista em diferentes paradas em sua turnê atual com Macy: em última instância, trata-se de uma apresentação de David Murray. Dentro da estrutura que tem armado desde os anos 80, o instrumentista conduz uma música que traz ingredientes do free no qual nasceu, mas sempre apoiado em composições e bases jazzísticas de diferentes matizes. Houve pontos de intensidade livre mais agudos, como quando, no sábado, solou sozinho mais demoradamente em certa passagem, mas sem desembocar  em um processo de liberdade e rispidez sonora de maior envergadura. Um dos momentos mais belos do concerto é a versão para “Joanne’s Green Satin Dress”, peça de Butch Morris que apareceu em um dos primeiros trabalhos de Murray (“Flowers for Albert”, de 76) e que agora recebeu letra e interpretação de Macy. Houve também espaço para a nova “Be My Monster Love” e para um hit da cantora (desconheço) que fez a alegria da massa, que cantarolou junto com empolgação. De um modo geral, um concerto quente, que não incomodou ter que ser visto de pé (salvo pela má conduta dos que vão apenas para desfilar e tirar fotos no lugar de degustar a música) e que cumpriu com louvor o que se podia esperar dele. Quem sabe o sucesso da noite não tenha aberto as portas para David Murray retornar sozinho em um futuro próximo...


A semana foi encerrada com a apresentação do quarteto comandado por Ivo Perelman, que havia tocado pela última vez no país naquele mesmo palco, em 2010. Perelman trouxe músicos com os quais têm trabalhado em anos recentes, mostrando elevado entrosamento sonoro-colaborativo. Após adentrarem o palco e se ajeitaraem em seus instrumentos, bastou que uma nota fosse soprada por Perelman, meio que ainda ajeitando os lábios à boquilha, para que Michael Bisio respondesse com um acorde desajeitado no baixo, e Matthew Shipp e Whit Dickey entrassem no jogo, com a música rapidamente brotando. Pela próxima cerca de uma hora, o concerto se desenrolou sem pausas, uma única longa improvisação coletiva com espaços para todos os músicos apresentarem suas particularidades. Se certo clima de “The Edge” – único álbum gravado pelo quarteto, em junho de 2012 – esteve inevitavelmente presente, é curioso que o desenvolvimento tenha sido inverso (esse é um disco com faixas breves, no qual a invenção improvisativa se apresenta mais concentrada).
Bisio e Dickey, que estavam pela primeira vez no país, demarcaram dois extremos. Enquanto Bisio demonstrou muita excitação ao baixo, tirando do instrumento sons de grande corpo em sequências que, por vezes, o colocaram no centro das atenções, o baterista optou por um viés minimalista, que o escondeu nas bases da música apresentada. Dickey concentrou seu toque nos elementos metálicos da bateria, estruturando uma cadência ininterrupta baseada em pratos e chimbal, executados com precisão e leveza, em meio a pontuais toques em bumbo e caixa. Poucos ataques e entradas mais musculares se fizeram presente em seu som, mostrando que hoje está distante do que apresentava no David S. Ware Quartet nos anos 90, quando os fãs da free music o descobriram. Bisio, por sua vez, tocando um baixo emprestado pela produção, fez do instrumento um campo de batalha. Agitando incansavelmente o baixo de um lado a outro, utilizando o arco em alguns momentos e abusando da intensidade impregnada pelos dedos nas cordas, Bisio impressionou o público com uma apresentação eletrizante. Shipp, que esteve presente na última passagem de Perelman por SP, estava completamente à vontade, exibindo as nuances de seu tocar, variando ataques robustos ao piano com acordes etéreos sussurrados por seus dedos que não ignoram espaço nenhum do teclado. Tendo trabalhado em diversos projetos com o saxofonista nos últimos anos, inclusive em duo, Shipp também trazia intimidade ampla com baixista e baterista, que formam seu atual trio (está aí um grupo que mais do que merecia vir mostrar sua música no país). Ver as mãos de Shipp flutuando pelo teclado, muitas vezes em arcos abertos que levam seus cotovelos à altura do queixo, é uma experiência ímpar: a genialidade do mais importante pianista contemporâneo da free music gestando sonoridades de beleza invulgar, que arrastam nossos sentidos a um campo visitado apenas em momentos pontuais. Sintonizado com o trio em todas esferas, Perelman conduziu uma música de maior lirismo, com menos expressões vulcânicas, como as vistas nos concertos de 2010. O dedo indicador carregando um curativo (acidente doméstico que fez com que a apresentação fosse adiada em duas semanas) não limitou o preciso dedilhado do saxofonista, que pôde apresentar sua ampla palheta de modulações sonoras, que vão do contemplativo a cumes mais incendiados. Sem se apoiar em bases melódicas pré-concebidas, Perelman constrói seu discurso em meio a oscilações melódicas fugidias, que enganam os ouvidos; quando parecem que vão se desenvolver em certo rumo, nos guiam para caminhos inesperados, ampliando a experiência da escuta constantemente durante o espetáculo. Interessante que agora que o ‘ciclo clariceano’ tenha sido dado por encerrado, o saxofonista encontre momentos de agudo lirismo, que trazem uma ácida doçura a suas improvisações, em uma maneira poética de lidar com a liberdade da música que conduz. Perelman vive um dos momentos mais vibrantes de sua extensa trajetória e vê-lo ali no palco faz com que, inevitavelmente, o imaginemos tocando em outro dos contextos que tem explorado recentemente. Seria ainda mais lírico se fosse apenas um duo com Shipp? O quanto seria mais pesado se estivesse com os músicos com quem gravou há pouco o álbum “One”? Difícil explicar para quem não está acostumado com esse tipo de criação como que, sem ensaio ou temas previamente concebidos, esses músicos conseguem desenvolver uma longa apresentação sem brechas ou arestas, como se tivessem exaustivamente praticado o que levariam a público. Mais do que nunca, destacar a polifonia como pilar desse quarteto é essencial: se qualquer uma daqueles vozes fosse estirpada ou substituída, teríamos um resultado bastante diverso.

Três saxofonistas dentre os grandes da música contemporânea. Três experiências sonoro-artísticas que mostram a amplitude da música criativa e o quanto ela ainda pode nos surpreender.


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*Photo (Roscoe Mitchell): by Petra Cvelbar
*Photo (Ivo Perelman): by Peter Gannushkin/Downtownmusic.net