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terça-feira, 28 de maio de 2013

Coming soon... THE THING ! (I)



For me, The Thing is my dream group. It's always been a dream group.”
(Mats Gustafsson)




Revisitação ao free jazz clássico, releituras implacáveis do universo rocker, parcerias infindáveis, improvisação e energia: esse é o múltiplo power trio escandinavo The Thing. Em um de seus pilares, está o saxofonista sueco Mats Gustafsson, nome associado a muito dentre o mais inventivo e enérgico que tem sido feito na música deste século. O saxofonista esteve no Brasil apenas uma vez, em maio de 2011, com a banda Fire!. Seu retorno ao país, agendado para o fim de junho, não poderia ocorrer de melhor forma: quem vem com ele desta vez é o The Thing.

O percurso do The Thing começa no início dos anos 2000. Mats Gustafsson (saxes), Ingebrigt Haker Flaten (baixo) e Paal Nilssen-Love (bateria) resolveram criar um novo grupo que tinha como ponto de partida um encontro com o trabalho do cornetista e pioneiro do free jazz Don Cherry (1936-1995). A homenagem foi explicitada no nome da banda – “The Thing” é o título de uma composição de Cherry. Com esse norte, entraram em estúdio nos dias 10 e 11 de fevereiro de 2000 para as sessões que resultaram no primeiro disco (homônimo) do grupo. Das seis faixas que compõem o álbum “The Thing”, quatro são de autoria de Cherry – o olhar de Gustafsson ao ícone free não era necessariamente uma novidade: em 1995, já havia gravado um duo com o percussionista Hamid Drake intitulado “For Don Cherry”.

Vale frisar que a relação do trio com o trabalho do cornetista acabou sendo apenas uma marca inicial, com novos rumos se abrindo para o grupo em breve tempo. Não à toa, em um concerto do trio em turnê europeia de julho de 2012, Gustafsson se sentiu incomodado e foi ao microfone retificar a informação veiculada pela organização do show de que o The Thing seria uma “banda-tributo a Don Cherry”. “Nós somos nós, Don Cherry é Don Cherry”, pontuou. Além disso, as referências free jazzísticas do power trio escandinavo vão além da homenagem a Cherry. Uma checagem em sua discografia revela várias releituras de temas desse universo: 'Angels' (Albert Ayler), 'Haunted' (Norman Howard), 'For Real' (Frank Lowe), 'Eine Kleine Marschmusik' (Brotzmann), 'Chiasma' (Yosuke Yamashita), 'Broken Shadows' (Ornette Coleman), todas foram recriadas pelos três instrumentistas.



Mas nem só de free jazz se alimentaria o The Thing. Logo em seu segundo álbum, “She Knows...”, de 2001, o trio demarcou uma outra relevante face que o acompanharia: o encontro com o universo rock. Abrindo aquele disco, há uma releitura desconcertante da dolorida “To Bring You My Love”, da musa PJ Harvey. Nos discos seguintes, o The Thing aprofundaria o diálogo com o rock por meio de versões instrumentais matadoras de temas pouco óbvios como “Art Star” (Yeah Yeah Yeahs), “Drop the Gun” (54 Nude Honeys), “Have Love Will Travel” (Richard Berry, mais conhecida na versão dos Sonics) e “Dream Baby Dream” (Suicide).
She Knows...” trouxe ainda uma outra marca do grupo: as parcerias. O álbum carrega como convidado o lendário saxofonista Joe McPhee (que virá com o trio ao país). Depois, o The Thing dividiria os créditos de muitos de seus álbuns com músicos outros próximos ao universo de Gustafsson, a ver: Ken Vandermark, Otomo Yoshihide, Jim O’Rourke, Neneh Cherry e Barry Guy. Essas parcerias levaram o som do grupo a possibilidades vastíssimas de criação. Não seria espanto se alguém gostasse imensamente de certos álbuns em detrimento de outros, mesmo que a unidade e a vitalidade da obra do trio se mantenham intocadas. Quem se encantou primeiramente com “The Cherry Thing” (2012), por exemplo, parceria com a cantora Neneh Cherry – e responsável pela ampliação de seu público e a exploração de um viés com tempero que resvala em certo limite pop –, pode ter encontrado dificuldades para adentrar as texturas e as ruidosidades dos discos com Yoshihide (“Shinjuku Crawl”) e O’Rourke (“Shinjuku Growl”). Já quem idolatra o The Thing por suas diretas e explosivas releituras roqueiras talvez se sinta entediado com seus registros de foco free impro, de alcance mais divagatório. Ou seja, não deve ser raro se deparar com alguém, fã de um álbum, que não sente apelo muito grande ao se defrontar com outros. Mesmo mantendo o foco do projeto, o trio escandinavo não se sujeita a acomodações e tem buscado fazer de cada um dos mais de doze títulos já editados uma expressão artística particular. Dessa forma, ir a uma apresentação do The Thing – que conta também com uma versão expandida em septeto, inédita em disco, que tocará em agosto em Lisboa no festival “Jazz em Agosto” – é sempre uma surpresa auditiva: da livre improvisação a resgates de temas do free jazz e do rock, tudo pode surgir no palco. Essa multiplicidade de propósitos e rumos apenas engrandece a experiência de descobri-los no palco ou em um novo registro, sendo que o inesperado e o inaudito centram as expectativas. Mais do que nunca, conhecer a discografia do The Thing é fundamental para se ter uma visão ampla do que podem oferecer. 




Um parceiro antigo de Gustafsson que já tocou com o The Thing, mas ainda não gravou com o trio, é o guitarrista Thurston Moore – estranha também o fato de o grupo não ter feito nenhuma releitura de um tema do Sonic Youth até então... Uma das ocasiões em que Moore esteve no palco com o The Thing foi em agosto de 2005, no Oya Festival, em Oslo (Noruega). O encontro ganhou registro em vídeo, sendo lançado oficialmente apenas em DVD como parte do box “Now and Forever” (2008). O Oya Festival tinha em seu núcleo bandas de rock, tendo tocado naquela edição de 2005 nomes como Dinosaur Jr., Kings of Convenience e Franz Ferdinand. Daí ter sido certeiro o momento do The Thing para aquele festival. O trio havia lançado há pouco o disco “Garage”, com releituras de temas de Yeah Yeah Yeahs, White Stripes e Berry/Sonics, demarcando de vez sua incursão na seara de revisitação desconstrutiva a campos roqueiros. Este é um álbum de pegada mais garageira, free com tempero rock de alta energia, gravação analógica direta que deixou o registro com sabor mais cru. O set apresentado para o jovem público do Oya Festival abre com a irresistível versão de “Art Star” (Yeah Yeah Yeahs), seguida por “Aluminum” (White Stripes) e “Have Love Will Travel” (Berry/Sonics). Na sequência, Moore sobe ao palco para os momentos mais noise da apresentação. O público gostou? Conquistaram novos ouvintes? Sabe-se lá... Mas é interessante vê-los apresentando sua inquietante música a ouvidos que ainda a ignorem.


"The Thing – Live @ Oya Festival"

1. Art Star
2. The Witch
3. Aluminum/Have Love Will Travel
4. No Crowd Surfing

*Mats Gustafsson (sax)
*Ingebrigt Haker Flaten (baixo)
*Paal Nilssen-Love (bateria)
* Thurston Moore (guitar, #4)


Live at Middelalderparken – OyaFestivalen, Oslo, Norway. August 12, 2005.
 


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Para os concertos que serão apresentados em São Paulo (capital e interior), entre os dias 26 e 29 de junho, é difícil apostar no que será visto. Como o trio também tem composições próprias, além de adentrar pesado a improvisação livre, é um mistério o que trarão na bagagem e se as quatro apresentações serão parecidas ou não. O The Thing não anda apostando muito em suas releituras do rock (e nem tem tocado os temas de “The Cherry Thing” sem a Neneh). E como terão o Joe McPhee de convidado, fica a expectativa de que a improvisação livre domine o centro dos concertos mesmo.



THE THING & JOE MCPHEE  


Quando: 26/6 (qua), às 20h30
Onde: Sesc Ribeirão Preto (SP)
Quanto: de R$ 2,50 a R$ 10

Quando: 27/6 (qui), às 21h
Onde: Sesc Santos (SP)
Quanto: de R$ 4 a R$ 16

Quando: 28/6 (sex), às 20h
Onde: Sesc Araraquara (SP)
Quanto: grátis

Quando: 29/6 (sab), às 21h30
Onde: Sesc Belenzinho (SP)
Quanto: de R$ 6 a R$ 24