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sábado, 30 de junho de 2012

Equívocos, vacilos e barbeiragens: o que Peter Brötzmann tem a ver com Bill Evans e Miles Davis?

Quem buscou informações no site do SESC sobre os concertos que o trio formado por Peter Brötzmann, John Edwards e Steve Noble realizará em SP, tomou um inevitável susto: está lá escrito:

“Juntos, trazem o repertório do recém-lançado álbum “...The Worse The Better”, em que o trio executa uma sonoridade influenciada por Bill Evans e a fase blues de Miles Davis, em que cada músico leva um brilho particular em seus solos.”

É isso mesmo? Brötzmann exibindo uma sonoridade influenciada por Bill Evans e Miles Davis? Em que universo? Isso soa tão tragicamente cômico aos ouvidos de quem conhece esses músicos quanto escutar um comentário de que o novo disco do Napalm Death ecoa influências de Portshead e Leonard Cohen... Tudo gente da boa, mas meio que uma relação absurdamente impossível de ocorrer.

Como isso não podia ter brotado simples e inocentemente da cabeça do redator do texto, alguma lógica mais complexa tinha que estar por trás. Afinal, pela primeira vez na história da crítica musical alguém conseguira relacionar Evans, Davis e Brötzmann (e de que diabos se trata essa tal ‘fase blues’ do Miles?). Fui tentar entender o que se passava. Tateando pela web, cheguei a uma crítica recentemente publicada por Joseph Burnett no site “The Quietus” sobre o disco “...The Worse The Better”. Mistério resolvido. Foi de um trecho da crítica que o redator do SESC tirou sua inspiração, que diz: 

“Around the halfway mark, the trio does relax into a more restrained pace, effortlessly transforming the piece into a sexy, almost “classic” jazz swing and, in the tradition of Bill Evans or Kind of Blue-era Miles Davis, each player gets a chance to shine with a solo.”

Ou seja, Burnett usou como exemplo Evans e Davis (a fase do álbum ‘Kind of Blue’, nada de ‘blues’!) apenas para fazer uma relação entre uma passagem (surpresivamente) relaxada do disco, “sexy”, (quase) temperada por um clássico swing jazzístico, em que os instrumentistas têm espaço para brilhar pontualmente com seus solos, como ocorria com o trio de Evans e o quinteto de Miles. Apenas isso. Burnett poderia ter usado vários outros exemplos, não sei se fez as escolhas mais adequadas ao comentar um disco do Brötzmann, e acabou gerando essa confusão monstruosa. Não, não existe, nem na crítica que inspirou o redator nem no mundo real da arte desses músicos, qualquer brecha de influências. E qual o problema dessa confusão? Simples: o cidadão vai no site do SESC, lê os nomes de Evans e Davis (que ele adora!), e compra ingressos para a família toda vivenciar uma bela noite de jazz protagonizado por um velhinho saxofonista alemão...

Espero que o Sesc não cometa a imprudência de colocar esse texto nos folders do evento, pois isso irá acabar por gerar equívocos e decepções...

Um pequeno vacilo mais: o trio não trará o repertório do recém-lançado álbum “...The Worse The Better”, que não tem repertório, mas apenas uma longa improvisação de 40 minutos repartida entre as duas faces do vinil! Estamos no terreno da improvisação livre. No setlist! Ouçam um pouco de  “...The Worse The Better” para entender melhor do que estamos falando:



Ps: em julho terá 'Especial Peter Brötzmann' aqui no Free Form, Free Jazz. Não percam.