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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Chick Corea: tempos de flerte com um universo livre e intenso


Chick Corea já foi um cara inquieto. Já deixou a música acontecer de forma solta, sem comodismo ou ambição de apenas angariar mais um Grammy para a estante.
O núcleo do Corea aberto a novas possibilidades artísticas brota em uma etapa focada na virada dos 60/70, em meio e notadamente após sua participação nos clássicos de Miles Davis “In a Silent Way” (fevereiro de 69) e “Bitches Brew” (agosto de 69). Corea nunca chegaria a se tornar um típico improvisador livre, mas teve lá seus arroubos. Seu álbum “Is”, de 69, apresenta na faixa-título, com seus 29 minutos de extensão, uma desenvoltura free impro consistente. Ainda nessa seara, vale conferir os dois volumes solistas “Piano Improvisations”, de 71, que apresentam um improvisador de imaginação econômica, mas de viva inventividade. Nesse processo, parece que o mergulho no grupo free-fusion de Miles em 69-70 acabou por se revelar fundamental para o que viria logo a seguir: o quarteto Circle.

Nascido como desdobramento do trio que o pianista reuniu com Dave Holland (baixo) e Barry Altschul (bateria) –que deixou como principal testemunho o disco “A.R.C.” –, o Circle adicionou o mago dos sopros Anthony Braxton e marcou sua curtíssima história, concentrada nos anos 1970 e 1971, com alguns preciosos registros. Críticos, como Todd S. Jenkins, afirmam que o quarteto não seguiu adiante devido às diferentes expectativas e projetos que moviam Corea – um instrumentista que nunca esteve disposto a enveredar sem medo pelas vielas da free music – e Braxton, ícone máximo da música criativa sem concessões.

Muitos conhecem o Circle pela sua mais difundida gravação, “Paris-Concert”, captada em fevereiro de 71 e lançada pelo selo ECM –este álbum teve inclusive uma edição nacional em vinil duplo nos anos 80. Antes e depois desse registro, o quarteto esteve em estúdio e palcos pelo mundo, dos quais surgiram outros testemunhos. Um problema é que difusão nunca esteve entre o forte do projeto: exemplo: “Circle 1: Live in Germany” e “Circle 2: Gathering”, dois importantes registros, foram lançados à época apenas no Japão e permaneceram por cerca de duas décadas sem receberem uma nova edição – infame curiosidade: quando apareceram em CD, traziam estampado destacadamente o nome de Corea na capa, como se de um trabalho apenas dele se tratasse. Outro disco que foi editado como pertencente à discografia de Corea, mas que traz em seu núcleo o Circle em ação, é “Circulus”, que apareceu no mercado apenas depois do fim do grupo, em 78 –época em que o pianista já era muito famoso devido à sua exitosa incursão fusion. É curioso que o “Return to Forever”, grande trunfo fusionista de Corea, tenha sido formado em 72, logo após a dissolução do Circle. Ambos projetos revelam universos sonoros tão distintos, mesmo estando temporalmente tão próximos, que parece inevitável: se o “Return” tinha de nascer, o “Circle” tinha, de fato, que ser deixado para trás: como conciliar propostas tão marcadamente diferentes?
Nos dois concertos que fará no país nos próximos dias, Corea virá em formato trio, com seu antigo parceiro de “Return” Stanley Clarke e com um sabor, ao que tudo indica, fusionista. Não à toa, Corea aproveitou a onda revival, que há alguns anos alimenta a cena rock/pop, para ressuscitar o “Return” e fazer um troco mais... Obviedade: sem chances de o pianista resvalar no palco do BMWFestival com seus momentos de grandeza free-Circle...

O quarteto Circle pode não representar a fase mais relevante dentro da trajetória de nenhum de seus integrantes. Mas desvela música com verdadeiros pontos expressivos, com desenvolvimentos longos e espaço para todos instrumentistas divagarem, improvisarem e criarem diálogos de fôlego. O repertório era formado por temas dos integrantes (não necessariamente feitos para o grupo) e algumas desmembrantes releituras de clássicos como “Nefertiti” (Wayne Shorter) e “There Is No Greater Love” (Marty Symes e Isham Jones).

Em concerto registrado em 1971, em Hamburgo, que nunca recebeu edição oficial, o quarteto estava bem armado para apresentar um show com música realmente forte em amplas roupagens. Energy music pode ser saboreada em “Composition 6I”, tema de Braxton no qual o saxofonista desconcerta munido de sua expressão mais arisca. “Toy Room” mostra outra pegada, algo mais free bop, com o piano de Corea sintonizado à sua sonoridade característica. Para quem conhece ou não o quarteto, fica a oportunidade de ouvir música feita em um momento histórico de ebulição criativa elevada, em que mesmo músicos que se revelariam mais contidos no futuro estavam abertos a um mundo de inquietação artística sem barreiras.


Circle - Live at Jazzhaus/1971

*Chick Corea: piano
*Anthony Braxton: saxes
*Dave Holland: bass
*Barry Altschul: drums, percussion

I 
II

1. Composition 6A  (23:12)
2. Rhymes (8:14)
3. Toy Room (6:07)
4. Q&A (12:27)
5. Composition 6I (22:58)
6. Composition 6F (10:25)
7. There Is No Greater Love (25:02)

Recorded live at Jazzhaus (Hamburg, Germany) in March 4, 1971.
Broadcast by NDR - Norddeutscher Rundfunk.