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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sons nas Redondezas - VIII

Arranjador. Compositor. Instrumentista. Criado em um ambiente musical, no qual seu pai, avô e tios se reuniam nos finais de semana para tocar choros, sambas, valsas, serestas e música caipira. Sua avó materna cantava muito bem e participou de alguns programas de calouros quando era jovem. Anos mais tarde, convidou-a para cantar em seu primeiro disco “Na Gafieira”. Iniciou seus estudos de saxofone aos 11 anos de idade. Começou a compor aos 16. Em 1999 ingressou no curso de Música Popular da Unicamp, em Campinas (SP). Em 2001 retornou à sua cidade natal, Belo Horizonte, e entrou para o curso de Música Erudita na Universidade Federal de Minas Gerais.

É assim que o Dicionário Cravo Albin apresenta Thiago França, um dos músicos mais ativos desses tempos. O saxofonista mineiro (1980, Belo Horizonte), envolvido com variados trabalhos de sotaques tantos –samba, gafieira, chorinho, improvisação, jazz, instrumental livre, o som dos terreiros e ritmos outros da África–, tem participado de uma serie de lançamentos/novidades: dos projetos MarginalS, Sambanzo e Metá-Metá, a colaboarações em discos/shows de Criolo, Tulipa Ruiz e Romulo Fróes, muito da música tocada e dançada por aí teve seu sopro envolvido. França, que também toca flauta e explora pedais, não deve (e não gostaria, penso) ser rotulado/encarado como um instrumentista de veia jazzística. O mundo sonoro brasileiro é que se revela como a base fundamental e fundadora de sua arte.

Atravessando momento de intensidade indiscutível, mais novidades vêm por aí: para muito breve, aguarda-se a chegada do primeiro álbum do “Sambanzo”, que já editou um single. “Sambanzo-Etiópia” é/será seu nome.
O Sambanzo é o meu projeto solo, autoral, não é exatamente uma banda”, explica França. O sugestivo nome criado pelo músico dá pistas do que esperar, rastros de matriz sonora brasileira embebida de banzo, de saudades da África-mãe perdida... 

O Sambanzo é um desdobramento do meu primeiro trabalho solo, "Na Gafieira", que é um disco de samba e choro, instrumental também. Eu sempre fui muito próximo da canção e aos poucos fui sentindo que as coisas mais simples eram as que davam mais certo, suingavam mais. Eu parti em busca da pedra-fundamental da gafieira, do que faz o público dançar, e a ficha caiu frequentando o candomblé. Ali eu encontrei um próto-samba, melodias simples e fortes, de pergunta e resposta, tocado com uma intenção muito diferente do samba que se faz hoje nas rodas. Lá eu entendi o lance de "ficar tocando", que é muito distante dos formatos fechados radiofônicos. As músicas eram cantadas uma vez ou trinta, o quanto aquele momento do ritual necessitasse”, contou o saxofonista.

No single já lançado do Sambanzo, o saxofonista alcançou ao menos um momento esplendoroso, de fatura mística que remete a tintas traneanas e wareanas: “Ngoloxi” (título extraído de uma espécie de reza do candomblé). São mais de nove minutos ao lado do guitarrista Kiko Dinucci em que, como explica o músico, há uma melodia não exata que vai se desenvolvendo e se perde, entre divagações e ligeiros arroubos. Mesmo que Thiago esteja bastante focado no fator ‘bailante-ritualísitico’, o que ele atinge aqui é o ‘contemplativo-ritualísitico’ que, de certa forma, acaba por dialogar com o melhor do spiritual-jazz (Alice, Pharoah) dos 60/70, com as cordas de Kiko iniciando a jornada traçando rastros de pinçadelas orientalistas, entre sutilíssimos pontos de silêncio sobre os quais a ‘melodia não-exata’ do sax tenor vai deslizando, lentamente se encorpando em meio à progressiva aceleração do dedilhado, rumo ao ápice dos 4/5 minutos. “Ngoloxi” (ouça abaixo) é uma faixa de imprecisa localização espacio-temporal, diversa do resto do trabalho do “Sambanzo” apresentado até o momento. Que venham mais Ngoloxis...

  Ngoloxi by thiagosax

Com outra visada, Thiago França desenvolveu seu mais comentado projeto: o trio MarginalS. Formado ao lado de Tony Gordin (bateria) e Marcelo Cabral (baixo), o MarginalS soltou o primeiro disco em 2011. Tendo como norte a improvisação, o trio estabelece conexões, mesmo que não-intencionais, com certo modern creative que tem revigorado a cena jazzística mundo afora, sem visitar extremos noise ou abstratos. Como toda competente improvisação, por mais liberdade de que goze, não nasce em um vácuo, a sonoridade do MarginalS desvela, em meio a suas particularidades, a multiplicidade de músicas que compõem (ou devem compor) a trilha (profissional e auditiva) de seus autores: jazz e rock, ritmos e gêneros brasileiros, africanidades e liberdade para juntar tudo isso e extrair nova fatura.

No MarginalS, a noção de improvisação livre não carrega ensinamentos da escola europeia de free improvisation, absorvida e deglutida por outros grupos nacionais, como o Abaetetuba, o Mnstr Combo ou o Mnemosine 5. Talvez por isso, em uma ouvida primeira, seu disco de estréia, dentro do processo de criação espontânea a que se propõe, estabaleça conexões mais explícitas com certas linhagens do jazz contempoâneo do que com o free impro –mesmo que França demonstre não se sentir muito confortável com o termo jazz:

Na minha visão, os grupos instrumentais que estão se destacando [no país] e despertando o interesse do público são aqueles que fogem dum modelo tradicional jazzístico. (O jazz é maravilhoso, mas o jazzista estraga o lance. Manja Adorno, "Em defesa de Bach, contra seus defensores"? É a mesma coisa.) Criou-se em torno do jazz um ranço de música elitista, intelectualmente superior, extremamente técnica, uma música pra ser apreciada de uma única forma, com o público sentado contemplando o músico. É o holofote, o indivíduo, cada hora um. Ao invés disso, existe uma preocupação com a estética, com os timbres, composições e arranjos, tudo que valoriza o coletivo. Uma pegada mais "rock n roll", mais orgânica, até visualmente os grupos parecem mais unidos”, avalia o instrumentista.

Encontro recente com Thomas Rohrer (rabeca e soprano) acabou por revelar uma outra face/pegada do trio. Rohrer é um dos mais intensos improvisadores da cena local, sendo o grande parceiro do decano da percussão livre brasileira, Panda Gianfratti.
Foi no palco do espaço +Soma, em fevereiro passado, que Rohrer se juntou ao MarginalS. Para o impressivo resultado (não lançado fisicamente, mas disponível para ouvir mais abaixo) foi fundamental a abertura do trio, que trata Rohrer como um parceiro e não um convidado e mostra que encontros entre visadas diversas do instrumental nacional atual podem gestar resultados de interesse revigorado. A intromissão, direta ou telepática, de Rohrer conduz o trio em muitos momentos às fronteiras da free improvisation, se distanciando do que o MarginalS apresentou em seu disco –as faixas 3 e 5 são boas testemunhas desse ponto. Quem já foi seduzido pelo MarginalS, talvez se delicie mais com a faixa 2, marcada pelo jogo entre os sopros, além de um grudento fragmento melódico que se repete melancolicamente no tenor.  

  MARGINALS + THOMAS ROHRER by MARGINALS



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"MARGINALS + MC Rodrigo Brandão"

Nesta semana, o MarginalS estará no Sesc, sendo uma das atrações do 'Nublu Jazz Festival'. Como convidado, o trio terá o MC Rodrigo Brandão, prometendo extrair nova fatura de suas improvisações. Na(s) mesma(s) noite(s), haverá show do Wax Poetic com Tulipa Ruiz.

Quando: 8/2 (qua), às 21h
Onde: Sesc Ribeirão Preto (Teatro Municipal)
Quanto: R$ 10 (inteira)

Quando: 9/2 (qui), às 21h30
Onde: Sesc Pompeia
Quanto: R$ 32 (inteira)