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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Músicos de (praticamente) um tiro só: Marzette Watts

Na ebulição da cena free jazzística nos anos 1960, muitos nomes surgiram e desapareceram sem deixar maiores rastros. Em discos da época, não é complicado encontrarmos músicos dos quais quase não restaram referências. Isso em meio a outros tantos que fomentaram gigs, circularam no meio, ajudaram a aquecer os esquemas e partiram em silêncio. O free jazz brilhou com o mesmo espírito de certo rock garageiro, abraçado por muitos jovens que acabariam por não ter na música seu campo central de sobrevivência. Em torno desses inúmeros anônimos, há também uma leva de músicos que conseguiram gravar álbuns próprios, mas que não viram suas carreiras prosseguirem. Quantos não assinaram a capa de apenas um ou dois discos? Engolidos pelas poucas oportunidades, desanimados pela dificuldade em sobreviver no mundo da free music, quantas figuras expressivas não acabaram dragadas?

Um importante capítulo nessa história foi o selo ESP-Disk, pelo qual muitos jovens estrearam e, em alguns casos, deram seus únicos suspiros. Em tempos recentes, após décadas fora de catálogo, tem ocorrido o resgate do legado do selo em formato digital, passo destacado na recuperação da arte de artistas esquecidos. O caso mais relevante em tal processo é o do trompetista Norman Howard. Desaparecido do universo musical em meados da década de 1970, Howard entrou em estúdio para registrar sua estréia como líder em novembro de 1968. O rebento se tornaria lendário: “Burn Baby Burn” era seu nome. Mas a crise que afetou a free music e o ESP fez com que o disco acabasse engavetado; Howard, desiludido, se isolaria... Apenas em 2007 –após circular como raro K7 nos anos 80/90– “Burn Baby Burn” apareceria em versão definitiva em CD. O curioso é que não se sabe que fim levou o músico, nem se estava morto quando sua genial obra foi desenterrada... A história se repete com outros nomes: o multi-instrumentista Giuseppi Logan, após gravar pelo mesmo selo os belíssimos “The Giuseppi Logan Quartet” (65) e “More” (67) desapareceu. Muitos tentaram reencontrá-lo nas décadas seguintes, sem sucesso. Dizia-se que havia se tornado mendigo, morrido e sido enterrado como indigente. Para surpresa da comunidade free jazzística, Logan foi reencontrado em 2008, já com 73 anos de idade, mas ainda pronto para reativar seu sax... A lista de músicos que despontaram nos 60's, mas logo silenciaram, é extensa: Arthur Jones (1940-1998), que assinou como líder apenas o clássico “Scorpio” (69); o trompetista Ric Colbeck, autor também de um único rebento, “The Sun is Coming Up” (70); Alan Shorter (1932-1987), que resumiu seu recado aos fortes “Orgasm” (68) e “Tes Esat” (70); o saxofonista Joe Phillips, que coassinou “Burn Baby Burn” antes de aderir ao islã, mudar seu nome para ‘Yusuf Munin’, gravar o fantástico “Al-Fatihah” (71) e sumir do mapa; ou o saxofonista Byron Allen, que soltou seu "The Byron Allen Trio" (64) sob as bençãos de Ornette Coleman, mas não vingou, tendo editado apenas um outro registro nos anos 70, antes de evaporar de vez; há também a cantora Patty Waters, que empolgou os ouvintes com “Sings” (65) e “College Tour” (66), ambos pelo ESP, para depois se afastar dos estúdios por três longas décadas; e Jacques Coursil, trompetista que lançou dois finos exemplares, “Way Ahead” (69) e “Black Suite” (70), optando na sequência a se dedicar somente ao ensino –voltaria a lançar um disco em 2005.

Dentre esses e outros, há um nome sempre lembrado: o do saxofonista Marzette Watts (1938-1998). Em paralelo à sua breve história como instrumentista, Watts ficou conhecido como engenheiro de som, estando por trás de discos clássicos: “Duo Exchange”, de Rashied Ali e Frank Lowe; “Alabama Feeling”, de Arthur Doyle; “Communications Network”, de Clifford Thornton; “Southern Bells”, do Clarinet Summit; todos trazem sua assinatura nos créditos. Já como saxofonista, líder e autor, Watts está presente em apenas dois álbuns: “Marzette and Company” (66) e “The Marzette Watts Ensemble” (68).

A história desse saxofonista americano nascido em março de 1938, no Alabama, começa com estudos de piano ainda na infância. Mais à frente, seu envolvimento com o SNCC (Student Nonviolent Coordinating Committee), importante grupo de luta pelos direitos civis dos negros, acabaria por tornar problemática sua permanência em seu dinamitado estado natal. A saída: Nova York, onde desembarcou em meio à efervescência do free jazz. Logo se aproximou do inflamado poeta Amiri Baraka, conhecendo por intermédio dele jovens músicos que nasciam junto ao free. Em 63, após passagem por Paris, onde tocou e aproveitou para estudar artes plásticas, Watts se aloja sob as franjas de Don Cherry, com quem aperfeiçoa seu sopro. Logo estaria acompanhando Henry Grimes e participando de gigs ao lado de Cecil Taylor, Sonny Sharrock e Archie Shepp. Depois de breve passagem pela Dinamarca, se reestabelece em NY e tem a oportunidade de gravar pelo ESP seu primeiro álbum, reeditado em tempos recentes em CD. Depois de uma segunda experiência em disco, agora pela Savoy, o saxofonista decide ficar apenas por trás da mesa de som. Em paralelo com o trabalho técnico em estúdio, iria depois direcionar sua verve artística para a produção e roteiro de filmes –uma aposta sem grande repercussão. Antes de sofrer um infarto, em março de 98, teve um de seus últimos trabalhos técnicos na música registrado no álbum “Tudor City”, do projeto Max Factory, captaneado por Alan Litch e Fred Lonberg-Holm –o lado B ficou a cargo de Marzette; o A, de Thurston Moore.

Os dois únicos discos assinados pelo Marzette Watts músico apresentam perfis diferentes. “Marzette and Company”, de dezembro de 66, é uma sessão mais áspera, com destacadas participações do guitarrista Sonny Sharrock e do sax de Byard Lancaster. Já o registro de “The Marzette Watts Ensemble”, realizado menos de dois anos depois, apresenta uma fatura mais reflexiva, para a qual os vocais etéreos de Patty Waters em alguns temas são essenciais. A versão do ‘standard’ colemaniano “Lonely Woman” é um dos pontos de delicado brilho do álbum; a faixa de abertura, “October Song”, de Bill Dixon, é outro deleite, na qual as vocalizações remetem ao espírito assombrado e desolado presente em composições de L. Nono. Da lavra de Watts, “F.L.O.A.R.S.S.” é o momento em que melhor se pode observar o trabalho do instrumentista. Nunca reeditado, “The Marzette Watts Ensemble” mostra que o saxofonista não deveria ter deixado sua arte; não faltavam força e inventividade à sua trilha. Mais um testemunho de abandono prematuro...




*Marzette Watts: tenor
*George Turner: cornet
*Marty Cook: trombone
*Bobby Few: piano
*Frank Kipers: violin
*Patty Waters, Amy Schaeffer: voice
*Cevera Jehers, Juny Booth, Steve Tintweiss (2): bass
*J.C. Moses, Tom Berge (2): drums
*Bill Dixon: piano (2); producer

Recorded in NYC, 1968.