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quinta-feira, 17 de março de 2011

O dia em que Diamanda encontrou Brötzmann

Há não muito tempo, um leitor do Free Form sugeriu o nome de Diamanda Galás para tratarmos por aqui. É fácil notar que pouco contemplamos até o momento trabalhos vocais (claro que nomes como Linda Sharrock, Abbey Lincoln, Jeanne Lee, Julie Tippetts sempre são mais que bem-vindos). Sem estabelecer conexões mais explícitas entre Diamanda Galás e a linha tratada nesse espaço que, por mais que tenda a ser  abrangente, acaba por ter certo nexo amalgamador, resolvi fuçar os arquivos em busca de tal ligação. E eis que me deparei com um ‘bootleg’ realmente interessante: o encontro de Mrs. Galás com o Last Exit.  

Diamanda Galás (1955, San Diego), além de cantora, toca piano. E foi com esse instrumento que estabeleceu relações mais próximas com a improv scene na década de 1970. Concentrada no piano, chegou a circular pela cena loft e a encarar gigs com nomes que incluem David Murray e Butch Morris. Entrada a década de 1980, começa a gravar seus próprios álbuns, passando a explorar de forma mais concentrada, extensa e intensa seu monstruoso aparato vocal. Sua linhagem gótica, dramática, teatral, às vezes me parece mais propícia a dialogar com construções do avant-garde erudito que do jazzístico –lembro que na década de 1970 ela chegou a realizar trabalhos com Vinko Globokar e Iannis Xenakis. Também já gravou com John Paul Jones (baixista do Led Zeppelin), John Zorn (“The Music of Ennio Morricone) e participou de trilhas de filmes de Francis Ford Coppola (Dracula), Wes Craven e Clive Barker. Não é difícil também pensar em sua voz rodeada de guitarras pesadas, talvez em um contexto death/black metal. Mas não consigo imaginar o vozeirão de Galás ao lado de William Parker, Matthew Shipp ou do Art Ensemble of Chicago: as possibilidades de improvisação tratadas por Galás pertencem a outro campo. O que talvez rendesse um insano e fervente encontro seria Diamanda + Brötzmann + Keiji Haino...
 
Alguns trabalhos de Diamanda, como “The Litanies of Satan” (82), título extraído de um poema de Charles Baudelaire (1821-1867), e “Metalanguage” (84) são realmente bons, vivos, intensos. Neles, nos deparamos com colagens, distorções e sobreposições de voz, temperadas por manipulação de ruídos e fragmentos, em um aproveitamento criativo de possibilidades construtivas/desconstrutivas oferecidas por sua voz e por um estúdio –que permitem o desabrochamento de camadas e texturas densas e desesperadoras em uma perfeita realização do proposto e projetado.

O encontro com Brötzmann e o “Last Exit” se deu próximo a esses álbuns, em 1986. Mas sua voz foi tratada de forma mais limpa, ela e o microfone. O palco era o do Moers Jazz Festival. A experiência soa forte, interessante, mas talvez abaixo da potencialidade latente dos envolvidos. Sabe-se lá qual foi a recepção do público, mas dizem que o encontro não teve um resultado animador/empolgante para os músicos, que não se sentiram em sintonia, se estranharam. E Diamanda jamais voltou a se reunir com Brötzmann.


1. Discharge
2. Backwater
3. Catch as Catch Can
4. Red Light
5. Enemy Within
6. Cracking
7. Pig Freedom


dglx
*Diamanda Galás: vocals (4,5)
*Peter Brötzmann: saxes
*Sonny Sharrock: guitar
*Bill Laswell: bass
*Ronald Shannon Jackson: drums
*Billy Bang: violin (special guest)


Recorded Live at Moers Jazz Festival, May 16, 1986.