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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sonoridades diversas, conjunto perfeito

Rob Mazurek permitiu que nosso ano musical tivesse início em grande estilo. Ao reunir um sexteto improvável no palco do Sesc para duas apresentações nesse fim de semana, com uma seleção que dificilmente se repetirá, o trompetista de Chicago conseguiu agrupar uma gama de sonoridades e referências diversas mas, como ficou demonstrado, altamente combináveis.

Mesmo dentre os norte-americanos, o ineditismo imperou: William Parker, Yusef Lateef e Mazurek não são parceiros e nunca haviam estado juntos no mesmo palco.
De seu entorno, Mazurek trouxe o vibrafonista de Chicago Jason Adasiewicz, que apresentou uma incrível energia, e o baterista/percussionista brasileiro Mauricio Takara, cada vez mais solto e dominante nesses embates com grandes nomes da música livre.

Das redondezas veio também a rabeca de Thomas Rohrer. Suíco radicado no Brasil desde 95, Rohrer é, ao lado de Panda Gianfratti, um dos poucos que tentam manter acesa a free improvisation por aqui. No sábado, Rohrer pareceu um pouco discreto, meio preso, tateando com cuidado. Já no domingo, soltou o pulso e mostrou o que pode, protagonizando momentos intensos, diálogos precisos com Parker e criando texturas vibrantes.

De um dia a outro, houve algumas mudanças também no percurso de William Parker. No 1° dia, o músico, centrado no baixo, apresentou uma trajetória em crescendo, indo de um início mais fechado, que se avolumou gradativamente até alcançar o domínio da estrutura rítmica do grupo. No 2° dia, Parker já chegou com mais groove e ímpeto, sem rodeios. Além disso, encostou o baixo no chão por um período, no qual mostrou outra face, executando um instrumento de sopro de madeira não-ocidental (de onde eu estava, não dava para ver ao certo de qual se tratava).

Yusef Lateef passeou entre sax tenor e flauta, além de brincar com diferentes pequenos instrumentos de sopro de madeira. Ao piano, iniciou as duas apresentações, com um toque sutil e profundo, gotejado, que chegou a espraiar certo sabor 'satieano'. Também cantarolou ‘spirituals’ no final de cada show, soltou sua voz bluesy (“Crossing the river and getting to the other side”...), seduzindo quem ainda estava na dúvida.
O mais fantástico dos concertos foi a integração entre o sexteto, sem estrelas e coadjuvantes, que proporcionou um espetáculo de elevada comunhão: sons, público, a alta arte celebrada. Não houve os clássicos momentos de exibição solista característicos do mundo jazzístico: o que se viu foi um grupo integrado, uma polifonia intrincada que necessitou de todas as peças presentes para se constituir.
Beleza sonora, nada mais.

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Yusef Lateef conta com parcela relevante de sua discografia em catálogo. Tendo gravado para selos de prestígio, como Savoy e Impulse!, assumiu o controle de sua obra apenas a partir da década de 90, montando sua própria gravadora, a “YAL”. Mas, apesar da admiração que desperta, não falta material seu fora de catálogo há tempos. Esse é o caso de In a Temple Garden. Captado em 1979, com um grande conjunto, sob as sombras da world fusion, esse álbum tem momentos curiosos –mas não exageremos: seu sabor setentista nem sempre agrada. De qualquer forma, é um trabalho importante na estrada de Lateef, distante de A Flat, G Flat and C, apresentado aqui anteriormente, ou do que pudemos apreciar nesse fim de semana.




A1   In A Temple Garden
A2   Bismillah
A3   Confirmation
A4   Nayaz
 B1   Jeremiah
B2   Honky Tonk
B3   How I Loved You
B4   Morocco


*Yusef Lateef: tenor, flute, voice
*Randy Brecker: trumpet
*Michael Brecker: tenor
*Eric Gale: guitar
*Jim Pugh: trombone
*Tom Schuman: electric piano (B3, B4)
*Ray Barretto, Jeremy Wall: percussion
*Jerry Dodgion: sax alto
*Suzanne Ciani: synthesizer
*Jimmy Madison, Steve Gadd: drums

Recorded at Van Gelder Recording Studios, May 1979.