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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

O 'free' lusitano em alta: Rodrigo Amado

Há pouco mais de um mês, fiz uma ligeira apresentação do saxofonista português Rodrigo Amado, que teve em 2010 um ano bastante expressivo – não à toa, ele aparece em dois dos álbuns que formaram nosso Top 10 anual.
Aproveitando o embalo, tive nesses dias uma conversa mais dilatada com ele, que agora disponibilizo aqui. Espero que a entrevista ajude a iluminar um pouco mais a obra desse grande músico ainda pouco conhecido por essas bandas.
(nas respostas, foram respeitadas as nuances do português lusitano)


FF- Vamos começar pelo início: como se deu seu encontro com o saxofone? A música sempre esteve em sua rota profissional ou chegou a estar envolvido com outras atividades?
"Comecei a tocar relativamente tarde, apesar de sempre ter um fascínio pela música e pelos discos. Quando tinha 17 anos tive um acidente grave – passei através de uma porta de vidro – e estive muito tempo imobilizado. A minha mãe perguntou-me o que me poderia dar para ajudar a passar o tempo e eu respondi de imediato: um saxofone! Desde aí nunca mais parei de tocar. Apesar de ser formado em Gestão de Empresas, trabalhei apenas cinco anos nessa área, numa multinacional de publicidade. Lembro-me da nostalgia que sentia ao observar as pessoas que passavam na rua, despreocupadas, aparentemente a gozar o seu próprio tempo. Ao fim desses cinco anos tomei finalmente a decisão de começar a trabalhar em algo que gostava. Foi uma decisão difícil. Comecei a trabalhar numa pequena editora e distribuidora de música clássica, a ganhar um terço do que ganhava antes. Desde aí tenho trabalhado sempre em áreas relacionadas com a música e, desde 2000, com os meus próprios projectos. Foi uma das mais importantes decisões da minha vida e uma descoberta; fazer o que gosto. Muitas pessoas falam sobre isso mas poucas têm coragem para o fazer."

FF - Queria que falasse um pouco sobre seu último álbum, ‘Searching for Adam’: o desenvolvimento do projeto, a relação com Nova Iorque...
"Quando fundámos em 2001 a Clean Feed, com o Pedro e o Carlos Costa (saí posteriormente, em 2005, para fundar a European Echoes, dedicada ao meu trabalho), comecei a viajar regularmente para Nova Iorque. Esse período coincidiu com o intensificar do meu trabalho como fotógrafo e, em 2008, realizei uma grande exposição intitulada “Searching for Adam”, apenas com imagens de Nova Iorque. Associada a essa exposição fiz uma série de concertos com o quarteto – Taylor Ho Bynum, John Hebert e Gerald Cleaver – em que eram projectadas imagens dessa série fotográfica. A improvisação musical era seguida pela improvisação de um fotógrafo que ia sequenciando as imagens, fazendo travelings ou zooms dentro das fotos, tudo em tempo real. Para mim esse trabalho está mesmo ligado aos ambientes que vivi em Nova Iorque e o nome “Searching for Adam” é uma metáfora para a procura de uma linguagem pessoal, algo que se tornou uma questão chave para a quase totalidade dos artistas contemporâneos.
"Foi incrível trabalhar com estes músicos. No primeiro dia em que tocámos juntos, fizemos um concerto na Casa da Música, e o som era exactamente aquele que eu tinha imaginado. A orgânica do Gerald equilibrou bem a angularidade do Taylor e já muitas pessoas me referiram que o disco é uma das gravações onde gostam mais de ouvir o trompetista."

FF - No que tem trabalhado nesse momento? Algum disco novo em preparo?
"Neste momento estou a trabalhar nas misturas do segundo álbum do trio com o violinista Carlos Zíngaro e o contrabaixista Ken Filiano. No final do mês vou para estúdio com o meu novo quarteto, com o Manuel Mota (guitarra), o Hernani Faustino (contrabaixo) e o Gabriel Ferrandini (bateria). Estou também focado no planeamento de duas grandes digressões que os Humanization Quartet vão fazer este ano, uma na costa leste dos Estados Unidos e outra na Europa. Vamos gravar o nosso terceiro disco. Em maio, o Motion Trio vai fazer uma série de concertos com o Jeb Bishop como convidado. Vamos gravar em estúdio e ao vivo. Estou também a preparar uma gravação com um novo projecto, bastante experimental, com o Ferrandini e com um jovem “turntablist”, o DJ Ride. O projecto chama-se Hurricane e é uma homenagem à música do Glenn Spearman, uma das minhas grandes influências."


FF - O que o entusiasma no jazz/free improv realizado nos dias de hoje? Acompanha a cena, ouve músicos mais jovens?
"Acho que a cena da música improvisada e do jazz de vanguarda está ao rubro, em todo o mundo e, particularmente, em Portugal. Apesar de os nomes mais falados serem sobretudo veteranos ou músicos com bastante experiência, há um enorme número de músicos talentosos, com enorme imaginação, a gravar e a editar. Em Lisboa, alguns dos músicos mais interessantes têm vinte e poucos anos. Representam uma geração com menos preconceitos e tabus. Querem apenas fazer música boa e vibrante. Não têm barreiras estilísticas. Saio muito para ouvir música ao vivo – apesar de ter duas filhas muito novas, a mais pequena com 4 meses – e fico sempre decepcionado por não ver mais músicos a assistir aos concertos. É uma das grandes limitações de muitos dos músicos, ouvem pouca música, ao vivo e em disco."

FF - Além de músico, você desenvolve um trabalho como fotógrafo. Como está a repercussão em torno dessa sua outra faceta artística? A fotografia ocupa parte significativa de seu tempo?
"Neste momento a minha actividade como fotógrafo é tão intensa como a de músico. Estou a preparar uma nova exposição para o Museu da Electricidade/Fundação EDP - um projecto sobre a Europa com imagens captadas em Moscovo, Berlim e Varsóvia. Estou também a desenvolver o projecto de um livro com a série fotográfica “Close, Closer”, um work in progress que deu origem à minha primeira exposição individual. E em março vou apresentar um novo espectáculo com música e imagem no Centro Cultural de Belém, no âmbito do dia mundial da poesia, inspirado na obra do poeta Herberto Helder. A repercussão tem sido bastante forte, não só em termos de afirmação artística mas também a nível pessoal.
"Música e fotografia representam, para mim, um enorme equilíbrio, permitem uma descompressão mútua. Tive bastante sorte em começar a trabalhar com uma Galeria – a Módulo – logo após a minha primeira exposição. A fotografia que aparece na capa do “Searching for Adam”, intitulada “4th Avenue, Adam’s Block”, foi recentemente adquirida pela maior colecção de fotografia nacional, a do BES Arte. É uma enorme motivação para continuar a trabalhar nesta área."

FF - Sei que também tem feito resenhas sobre discos de jazz para o jornal Público. Escrever era um desejo antigo seu ou a proposta surgiu por acaso?
"A proposta surgiu por acaso, num desafio do momento, e eu pensei que não iria gostar de o fazer por estar a escrever sobre outros músicos, muitos dos quais conheço bem. No entanto, adorei e penso que tenho conseguido manter uma independência de pensamento, ao mesmo tempo que tenho impulsionado as áreas mais criativas do jazz, aquelas que eu penso que irão fazer a diferença no futuro. Cada novo texto é um desafio para encontrar os elementos chave de uma gravação, para fazer a síntese de pensamentos e para encontrar o equilíbrio final. Por vezes, um texto sai-me de forma totalmente natural e instintiva, por outras fico horas às voltas com pequenos detalhes ou com o sentido de uma frase. De uma forma geral é uma actividade que me obriga a estar a par daquilo que está a acontecer nesta música, em todo o mundo."

FF - Qual o espaço do jazz e da free improv em Portugal hoje? Há muitos bares, festivais, público? Um músico como você consegue sobreviver se depender apenas da cena local?
"É difícil generalizar as condições que existem no país. A maior parte das coisas acontecem em Lisboa e Porto. Em Lisboa a cena do jazz e da free improv desenvolveu-se muito nos últimos dez anos. Existem muitas oportunidades para tocar e para ouvir esta música, pequenos espaços, associações, livrarias, mas frequentemente os músicos tocam por muito pouco dinheiro. Penso que é algo que acontece em todo o mundo – os músicos que optam por fazer música criativa e realmente interessante, dificilmente sobrevivem apenas disso. O único clube de jazz que existia em Lisboa – Hot Clube de Portugal – ardeu e só agora vai reabrir.
"Mas os projectos de músicos mais novos, de free improv ou de jazz de vanguarda, já não estão dependentes do rótulo “jazz”, e os grupos acabam por tocar em espaços que também têm rock alternativo ou outros tipos de música. No meu caso, para sobreviver necessito de fazer tudo isso; escrever, tocar, fotografar, e outras coisas mais. É sempre necessário continuar a investir, em novas edições e gravações, produção de livros, discos e exposições, etc".

FF - E a sua discoteca? É um colecionador ou adquire CDs/LPs ocasionalmente? Tem somente jazz ou aprecia outras esferas musicais?
"Não me considero um coleccionador. Sou apenas louco por música, desde muito pequeno. Quando viajava,  regressava com a mochila cheia de discos, era mesmoa única coisa que trazia. Hoje tenho a casa cheia de discos. Como escrevo para o jornal, estou sempre a receber discos, de toda a parte. Faço uma selecção muito apertada daqueles que conservo – só coisas de que realmente gosto e que sei que poderei ouvir novamente. É um dos meus grandes prazeres, observar lentamente as estantes e decidir o que me apetece ouvir naquele dia ou naquele momento. Sempre ouvi todo o tipo de música, todo mesmo. Rock alternativo, hip-hop, clássica contemporânea, experimental, brasileira, soul, electrónica, pop. Dentro de cada uma dessas áreas tenho tendência para gostar de projectos mais criativos e experimentais, ou então os clássicos, puros. Não me interessa o “mainstream”. Por curiosidade, numa listagem de discos do ano que fiz para o site “El Intruso” encontram-se referências como Flying Lotus “Cosmogramma”, Ariel Pink “Before Today” ou The Black Keys “Brothers”, ao lado de discos do Steve Swell, Vandermark 5, Little Women, Adam Lane, ou o trio Parker/Guy/Lytton com o Peter Evans."
 
FF - Você nunca se apresentou no Brasil. Já teve a oportunidade de conhecer o país? E a música brasileira, tem alguma referência? 
"Já estive no Brasil, mas nunca para tocar. Estive num sítio incrível, Jericoacoara, e adorei a experiência, mas não a associo ao Brasil pois sei que o país é um teritório tão imenso e com ambientes tão variados que, para ter apenas uma ideia, teria de viajar muito mais. Tenho grande curiosidade por São Paulo e pelas zonas rurais do interior. Eu cresci com música brasileira. Os meus pais quase só ouviam isso. Lembro- me que, no fim de semana, a minha mãe acordáva-nos com Gal Costa a tocar, muito alto. Era uma energia de enorme alegria. Hoje, continuo sempre a descobrir coisas novas. Alceu Valença, Marcos Valle (“Previsão do Tempo” é enorme!), Tom Zé, Vinicius Cantuária, Hermeto Pascoal, Novos Baianos, Lô Borges, João Donato, Cassiano, Ed Motta, Raul Seixas, Secos e Molhados, Mutantes, e claro... os clássicos, principalmente Caetano e Gal. Provavelmente ficou-me de pequeno."

FF - Quando veremos Rodrigo Amado nos palcos brasileiros?
"Boa pergunta! (risos) Seria algo com um significado especial para mim."

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*Photo 1 by Nuno Martins
*Photo 2 by Cristina Cortez
*Photo 2 by Jan Bebel
*video: "Humanization 4tet" (Amado, sax; Luis Lopes, guitarra; Aaron G., baixo; Stefan González, bateria; Elliot Levin, sax -músico convidado), em junho de 2009. Faixa 'Dehumanization Blues', do álbum 'Electricity'.