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quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Waiting for Pharoah... (I)

Essa não será a primeira visita de Pharoah Sanders ao país. Mas já faz um bom tempo que ele não pisa por essas bandas. Em 1997, Sanders tocou no Free Jazz Festival e no Bourbon Street. Para aqueles que não puderam apreciar o lendário músico naquele ano (como eu, que em 97 ainda fazia minhas primeiras incursões pelo planeta jazz...), a chance de vê-lo no palco do Sesc agora é algo imperdível. Mesmo que o saxofonista não seja, há um bom tempo, referência no jazz mais radical, ele ainda se chama Pharoah Sanders.


Nascido Ferrell Sanders em 13 de outubro de 1940, no Arkansas, o saxofonista chegou a Nova York apenas em 1961. Antes de NY, esteve em San Francisco, entre 59-60, onde conheceu pela primeira vez John Coltrane. Por lá, Sanders fez o que pôde para sobreviver de música, tocou em diferentes formatos e estilos, do R&B ao jazz mais tradicional. Curiosamente, dividiu em algumas oportunidades o palco com os também ainda desconhecidos Dewey Redman e Sonny Simmons. Chegado 1961, resolveu pegar uma carona para NY e teve de encarar dias muito difíceis antes de se juntar a Coltrane e se tornar uma referência da new thing. Em entrevista ao jornalista português José Menezes, em 2004, Sanders falou sobre seus duros primeiros tempos em NY:

“Estava em Nova Iorque e era um homeless. Estava longe de casa há 2 anos e meio... o meu aspecto era tão mau, tão sujo... não queria estar com ninguém.. não podia ir aos clubes, mas ouvia do exterior... Doava sangue para ganhar alguns dólares, tipo 5 dólares por uma garrafa de sangue. Assim podia comprar pizzas ou chocolates que me davam alguma energia. Nesse tempo dormia nas entradas dos prédios de apartamentos. Mais tarde... eu continuava a doar sangue... mas estava farto disso. Pensei em arranjar algum trabalho e comecei a ter alguns empregos em Greenwich Village. Comecei então a trabalhar como cozinheiro”

“Nesse mesmo lugar onde trabalhava foi onde conheci Sun Ra. Eu trabalhava na cave. Lá em cima, no mesmo edifício, no clube, que se chamava Playhouse. Uma noite, um grupo começou a tocar e eu pensei “Espera aí! Que é que eles estão a fazer?”. E eram John Gilmore, Pat Patrick, Marshall Allen e alguns outros de quem eu não conhecia os nomes. E então uma noite eu fui lá cima, durante o intervalo, e fiz saber a Sun Ra que eu era músico, que tocava tenor... Mas o Sun Ra assustava-me, todas aquelas coisas na cabeça, uma capa... Sun Ra era diferente de todos e a música do seu grupo não era parecida com nada do que eu tinha ouvido... e ele deixou-me tocar uma noite. E acho que gostou de mim, já que eu era muito sério em relação à música que queria tocar.”

Em junho de 64, Sanders gravaria um álbum com Sun Ra _que seria lançado apenas em 72, pela ESP. Pouco depois, em setembro de 64, entraria em estúdio para gestar seu primeiro disco como líder (‘Pharoah’s First’). No ano seguinte, iniciaria sua parceira com Coltrane, que renderia alguns dos melhores álbuns do período, como ‘Meditations’, ‘OM’ e ‘Live in Japan’.
Apadrinhado por Coltrane, Sanders assinou com a gravadora Impulse!, iniciando essa relação, que duraria até 73, com o disco ‘Thauid’ (66). Em ‘Thauid’, algumas das obsessões sonoras de Sanders já estão presentes e apontam o rumo de sua música nos anos seguintes. Oriente/Ocidente; agressividade/suavidade; longas faixas marcadas por devaneios exóticos intercalados com explosões ruidosas.


Se, ao lado de Trane, o sopro de Sanders mantinha-se em mais contínua alta voltagem, em seus álbuns o saxofonista mostrou que também tocava com leveza, dependendo do espírito de cada momento. Os discos de Sanders foram criados a partir de três grandes referências: o free jazz, a sonoridade africana e a espiritualidade de matriz indiana. Assim, ouvi-lo costuma implicar em uma viagem de variadas cores e aromas: não há aqui o free direto e seco, como ocorre com um Brotzmann, por exemplo. Em seu esplendor, entre as décadas de 60/70, Sanders costumava, tanto em gravações de estúdio quanto ao vivo, criar peças de longa duração, rondando os 20 minutos, enchendo cada lado do vinil.

Live at the East é um dos álbuns que bem ilustram esse rico período criativo de Pharoah. Captada em 1971, a apresentação trazia grandes músicos (Cecil McBee, Marvin Peterson, Norman Connors) em perfeita sintonia sonora com os rumos buscados por Sanders. A primeira faixa, Healing Song, com seu repetido tema melancólico encapsulando picos explosivos, sintetiza e aponta o rumo sonoro buscado pelo saxofonista no período e serve de introdução à melhor safra produzida por ele.


A1 Healing Song 21:43

B1 Memories Of J. W. Coltrane 12:51

B2 Lumkili 8:33




*Saxophone - Pharoah Sanders
*Trumpet - Marvin Peterson
*Bass - Cecil McBee , Stanley Clarke
*Congas, Percussion [Bailophone] - Lawrence Killian
*Drums - William Hart , Norman Connors
*Flute, Voice - Carlos Garnett
*Piano, Harmonium - Joseph Bonner
*Vocals - Harold Vic

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"Pharoah Sanders + Chicago Underground Trio"


-SESC Pinheiros
-Dias: 21/08 e 22/08
Sábado, às 21h. Domingo, às 18h.