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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O new life trio de Steve Reid

A lista de discos de jazz abandonados no passado, jamais resgatados em CD (mídia que entra em sua terceira década), parece sem fim. Cada vez, descobrimos um disco que nunca tínhamos ouvido falar e que em nenhum momento ganhou reedição. Não faltam grandes músicos que têm boa parte de sua obra mantida viva apenas pelo contínuo trabalho de divulgação de amantes e colecionadores. O baterista Steve Reid comentou, em entrevista dada em 2008 à Jazz Times, esse tipo de problema, de ser ignorado e de ver o predomínio, dentre os discos relançados, da assinatura de grandes selos atuantes no passado, como Blue Note, Prestige e Impulse: “Most of my records were made outside the United States, and a lot of them are on vinyl and aren’t obtainable on CD. Some people thought that I had disappeared or something”, disse Reid. Ao menos alguns dos grandes trabalhos de Steve, caso de Odyssey of the Oblong Square e Rhythmatism, receberam há pouco nova versão...

Steve Reid vive há algum tempo em Lugano (Suíça). Esse baterista americano originário do Bronx nasceu em 44 e muito cedo desembarcou na música profissional. Aos 17 anos, foi contratado pela banda de apoio do Apollo Theatre, sob direção de Quincy Jones. Naquele ano, fez sua primeira gravação, pela Motown, acompanhando Martha & Vandellas. Na década de 60, embarca para o continente africano, onde viveu por três anos, passando por Nigéria, Libéria, Senegal, Costa do Marfim, Congo, Morrocos e Egito. Foi somente após o fim de seu périplo africano _retornou aos EUA em 69_ que passou a se envolver com o avant-garde jazz, se associando a Charles Tyler (um de seus parceiros constantes), Sun Ra, Arthur Blythe, Lester Bowie, Sam Rivers, Henry Threadgill (músicos com os quais gravou e se apresentou). Participou também de discos clássicos em outras searas, como “Popcorn” (James Brown), “Africa One” (Fela Kuti) e “Tutu” (Miles Davis). Ainda atuante, tem excursionado com o “Steve Reid Ensemble”.

Reid gravou seus discos mais intensos nos 70s, principalmente pelo selo que criou naquela época, o Mustevic Sound. Um de seus trabalhos nunca relançados vem desse fértil período. Visions Of The Third Eye, captado em 1979, saiu sob a rubrica “New Life”, como nome do trio que executa o álbum (além de Reid, David Wertman, no baixo, e Brandon Ross, na guitarra). O New Life, como grupo, resume-se a essa gravação. Como as composições estão divididas entre os três músicos, talvez a generosidade de Reid não tenha permitido que considerasse este um álbum apenas seu _mas isso apenas ele pode responder... (há algumas discografias que apontam o disco como se fosse apenas de Reid).


Visions Of The Third Eye é um álbum equilibrado em todos os sentidos: os músicos dialogam o tempo todo, sem espaços para destaques de virtuosismos isolados de um ou de outro; belas faixas, em linha, sem grandes cumes ou abismos; free music sem as arestas que desagradam alguns ouvintes _os que se incomodam com os universos mais ruidosos.

“Sculpture” é um dos destaques do álbum; a abertura é feita pelo dedilhado de Ross, suave, que ecoa ventos de certo violeiro ‘espanholado’ no início. Logo, o baixo e a bateria entram para marcar um ritmo que se acelera cada vez mais, enquanto a guitarra vai deixando a leveza inicial para seguir o rastro de seus parceiros. Lá pelo 3º minuto, Wertman começa a estilingar seu baixo, cada vez de forma mais intensa, enquanto Ross segura uma repetida base, sempre com a marcação rítmica crescente de Reid. Essa estrutura alcança seu ápice no 5º minuto, quando Reid desacelera bruscamente a marcação, reconduzindo os músicos à placidez inicial. Um toque mais ‘bluesy’ se instaura na guitarra e leva os músicos, entre acelerações e regressões, até o final. A faixa sintetiza e indica os caminhos do álbum. Boa opção começar a escuta por ela.

Se o próprio Steve Reid se considera meio esquecido, seus parceiros nessa gravação são ainda mais obscuros. Brandon Ross é um guitarrista do qual pouca informação está disponível por aí. Alternando-se entre guitarra elétrica e acústica, gravou com Henry Threadgill e formou um grupo com o violinista Leroy Jenkins nos 80. Há um Brandon Ross que gravou com Cassandra Wilson mas, confesso, não sei se trata-se apenas de um homônimo... David Wertman já foi apresentado por aqui no texto de “Kara Suite”.

A1 Empty Streets 2:02
A2 Egypt Rock 8:13
A3 Sculpture 10:46
B1 Chinese Rock 12:21
B2 Prelude to Grace 4:56
B3 Love Cipher 2:23