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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Noise, ruído, cacofonia, barulho, distorção: nas trilhas da não-música

Se a presença de ruídos está em toda parte, na música se tornou apenas uma entidade aceita nas últimas décadas. As regras clássicas de harmonia e consonância não preveem, de forma saudável, a intromissão de ruídos, barulhos e afins, quer sejam internos ou externos. A cacofonia apenas se tornou parte efetiva e constante do fazer musical no século XX, como provocação e exploração de certos criadores avant-garde. Talvez o Futurismo de Luigi Russolo, nas primeiras décadas do século XX, tenha sido a inicial manifestação musical partidária de sons ruidosos. Com seu L’Arte dei Rumori (A arte do ruído), de 1913, Russolo defendia a invasão ruidosa na criação musical, reflexo, para ele, do mundo contemporâneo. Criou aparelhos e compôs música, mas pouco de suas invenções e intervenções sobreviveram.

Não parece exagero apontar que os projetos de Russolo apenas encontraram sua concretização de fato algumas décadas depois, nas margens da música (dita) erudita, quando Pierre Henry e Pierre Schaeffer assombraram os ouvintes (sabe-se lá quantas pessoas) com sua criação ‘concreta’ Symphonie pour un homme seul, que data de 49/50. A ruidosa vida moderna, vozes e cidade em ação, aparece reestruturada, desmontada e recolada para sustentar essa peça que oferecia sabor inédito até então. Paralelamente à música concreta, emergia a eletroacústica, munida de sons naturais e eletrônicos, instrumentos, cantos e o próprio eco da metrópole, captados e retransformados via colagens, diluições, filtros, criando sons novos, inidentificáveis. Está certo que a aventura dodecafônica e serial trouxe um campo sonoro inédito na primeira metade do século _mas essa se ergueu sob novas e rígidas regras harmônicas: nada de free form.

Nesse período, o gênio alemão Karlheinz Stockhausen (1928-2007) iniciava suas pesquisas eletrônicas, em busca de mundos inexplorados. O que era anteriormente sujeira auditiva, agora surgia como âncora de um processo exploratório e composicional. Amparado em rudimentares sintetizadores e laboratórios para criar e desmontar sons, muita fita magnética, sistemas de rádio e geradores de ondas senoidais, Stockhausen deu início à aventura eletrônica e eletroacústica. Não mais era necessário esperar dos instrumentos timbres e vibrações novos: passava a ser possível gestar algo diferenciado partindo do já conhecido (ou não), desmembrando as notas, destrinchando a voz e chegando a sonoridades nunca antes testadas.

Falar em ruídos, barulhos, distorções, em noise como caminho de criação artístico-abstrata-sonora engloba campos bastante extensos. Selecionei algumas amostras, na tentativa de captar longos períodos e percepções distintas: música eletroacústica/eletrônica/concreta; free jazz/improvised; harsh noise; electrocore: variações intencionais e de efeitos diversos, em épocas diferentes, mas sempre visando o labor de ruídos, de fragmentos sonoros. Nada de melodias assobiáveis, ritmos cadenciados ou relações harmônicas prováveis: trilhas virgens, rumo a peças intrigantes, a caminhos ainda não-explorados. Não-música? Rumo à não-música?

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Os primeiros passos de Stockhausen no campo eletrônico o levaram a desvendar e realocar o som em precários estúdios. Em 1952, Stockhausen apareceu com Etude, na qual explorou sons gravados a partir das cordas de um piano. A partir daí, recopiou os sons várias vezes, explorando velocidades, cortes e ataques. O resultado pode parecer menos dinâmico do que sua descrição, mas estamos falando de uma peça elaborada em 52.


1: Étude (3:35)
2: Studie I (10:00)
3: Studie II (3:50)
4: Gesang Der Jünglinge (13:40)
5-29: Kontakte (35:00)





Um pouco depois, em Studie I e II (53/54), o compositor lidou diretamente com processos eletrônicos, criando e manipulando sons rudimentares. Nos anos seguintes, chegou a Gesang der Jünglinge (55/56), quando inicia suas explorações eletroacústicas. Nessa fase, Stockhausen começa a trabalhar de forma engenhosa a mistura de sons acústicos e eletrônicos. Em Gesang der Jünglinge, a voz de um jovem cantor é diluída, com frases desmembradas em fonemas e rearquitetadas ao lado e entre sons eletrônicos. A voz recita textos do bíblico Livro de Daniel _que narra a história dos três jovens mandados à fornalha pelo rei Nabucodonosor_, surgindo e desaparecendo em meio aos ruídos eletrônicos (labaredas?) e a reverberações dela mesma. Uma pequena obra-prima. Em 1960, o compositor alemão intensificaria suas explorações na seara eletrônica para gestar Kontakte. Já mais experiente dos efeitos possíveis a serem criados naquele momento, concebe uma peça mais madura, fluida e criativa que suas intervenções anteriores. Novos sons, de difícil degustação. Diferente do que pode soar a ouvidos menos preparados, não se trata aqui de música incidental ou ambient. A função da peça é outra. Ruídos em ação. Novo cosmos sonoro.


A exploração de timbres e sons inovadores não está necessariamente relacionada à criação de instrumentos e aparelhos. Isso porquê de nada serve inventar um instrumento se quem o utilizar não estiver preparado e interessado em fazer uma peça artística de fato desbravadora. Esse álbum, Mass Projection, gravado em 1970, traz um duo entre o saxofonista Kaoru Abe e o guitarrista Masayuki Takayanagi _ou seja, instrumentos tradicionais, muito já executados até o período. Mas o que os dois músicos japoneses apresentam, em duas faixas, serviu de gênese ao que seria rotulado depois como noise, harsh noise, free noise e afins. Munidos apenas de sax e guitarra, mostram um virulento e ruidoso álbum, infinitamente mais agressivo do que muitos discos pretensamente agressivos. Um dos pontos altos da obra excepcional desses dois músicos.


Os japoneses sempre estiveram atentos à vitalidade das expressões artísticas radicais. Tanto que passou-se a falar até em japanoise, como um estilo de traços característicos desenvolvido no país asiático. Nesse espaço, floresceu o radicalismo do Hijokaidan. Surgido em 79, o Hijokaidan tem à sua frente o guitarrista Yoshiyuki ‘Jojo’ Hiroshige e Toshiji Mikawa. A base do Hijokaidan é guitarra e eletrônicos, pedais e amplificadores. Também voz, às vezes um convidado de passagem. É incrível ouvir o que esses músicos criam com essa base, levando a noção de noise-ruído-barulho-distorção-dissonância-cacofonia a seu extremo. Aqui pode ser ouvido um EP, Ferocity of Practical Life, com duas faixas e cerca de 20 minutos da mais elevada agressividade sonora.


Sendo a mais jovem dos músicos aqui destacados, Nic Endo apareceu para o mundo quando se associou ao digital-hardcore do Atari Teenage Riot, em meados dos 90. Nascida nos EUA e filha de pai alemão e mãe japonesa, Nic Endo se dedica à exploração de sons eletrônicos _em uma concepção provavelmente diferente da de Stockhausen; menos investigação intelectual, mais tato e pegada... Interessante ver que nas searas do eletrônico de apelo menos ‘erudito’ também há buscas por campos inovadores. De discografia pouco extensa, creio que esse White Heat, de 98, seja seu fruto mais experimental.


Curioso notarmos como o 'Houaiss' define o termo ruído (dentre outras acepções): qualquer som indistinto, sem harmonia; som produzido por vibrações irregulares; fragor, estrépito; na comunicação: qualquer distúrbio ou perturbação que ocasiona perda de informação na transmissão da mensagem.

Curiosa uma frase atribuída a um dos grandes exploradores do noise no Japão, Masami Akita (o Merzbow): “Se com noise a intenção é indicar sons desconfortáveis, então música pop é noise para mim”.