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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Uma conversa com Brad Mehldau

O pianista norte-americano Brad Mehldau esteve no Brasil em setembro, onde realizou shows solos em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Nascido em 1970, na Flórida, ele estreou como líder em Introducing Brad Mehldau, gravação realizada em 1995. Em seu percurso, o trio (com baixo e bateria o acompanhando) se tornou uma estrutura central. Não apenas pela preferência por esse formato, ouvir Mehldau remete rapidamente ao universo contemplativo de Bill Evans, com algo a não se ignorar de  Keith Jarrett. Atualmente, Mehldau tem sido bastante citado por suas investidas na seara rock, onde tem buscado inspiração melódico-temática para interessantes releituras instrumentais. Seu último álbum, Live, saiu em 2008, tendo sido gravado entre 11 e 15 de outubro de 2006.

Mehldau conversou com o FreeForm, FreeJazz na semana em que se apresentou em São Paulo.



(Por Fabricio Vieira)


FF - O que preparou para os concertos no Brasil?
"Eu sempre tenho uma lista de várias músicas com as quais ando trabalhando e, a partir daí, seleciono o que tocarei na noite da apresentação. Eu tento não repetir muito as músicas de uma noite à outra. Essa é uma excursão de cerca de 14 concertos solo que estou fazendo. É divertido quando toco uma música que jamais executei antes, porque vai surgindo ali, no momento da improvisação, vinda do nada. O interessante em me apresentar sozinho é que posso tocar o que quiser, sempre, não preciso me preocupar com os outros músicos, se conhecem algo novo que decido tocar na hora."


FF - Uma influência perceptível em seu piano é a música clássica. Você teve algum envolvimento com o erudito antes do jazz?
"Eu comecei como estudante de música clássica, quando era garoto, e adorava isso. Meu único problema era a disciplina, eu nunca queria praticar muito. Acabei me afastando do clássico aos 13 anos e descobri o jazz nesse período. Voltei a tocar e ouvir música clássica apenas quando estava com uns 21 anos. Agora sou o oposto do que era quando garoto: tudo o que quero é praticar música clássica. Bach com café todas as manhãs!"


FF - Sente-se herdeiro de pianistas de gerações anteriores?
"Junior Mance foi um mentor para mim quando cheguei em Nova York – e não apenas pelo que tocava, mas também pela forma como tratava as pessoas. Hank Jones, que ainda segue sendo uma inspiração: eu apenas o vi tocar em Nova York na semana passada, comemorando seu aniversário de 91 anos, fazendo um grande som, contando piadas... Espero chegar lá. O problema em falar quais foram minhas influências é: ainda estou sendo influenciado. Músicos crescem e se transformam o tempo todo. No momento, estou sendo influenciado pelos “Nocturnes”, de Gabriel Fauré, “Exile on Main Street”, dos Rolling Stones, e “Piano Fase”, do Steve Reich. No próximo mês, poderá ser algo diferente. Então, ainda estou crescendo e mudando como músico. Assim espero."




FF - Vamos falar um pouco sobre seu mais recente álbum, “Live”...
"Live é a culminação de uma porção de coisas que vínhamos tocando juntos eu, o baixista Larry Grenadier e o baterista Jeff Ballardo durante algum tempo. A forma e a abordagem desse registro são as mesmas que eu costumo sempre fazer: pegamos um material e saímos em excursão por um ano ou mais, tocando, experimentando; depois, gravamos durante toda uma semana de apresentações no Village Vanguard, em Nova York. Então, veio a fase de escolher os melhores takes feitos durante aqueles concertos registrados. E daí temos o álbum pronto."


FF - Neste último álbum, você gravou “O que será”, do Chico Buarque. Qual a sua familiaridade com a música brasileira?
"Eu vi Dona Flor e seus dois maridos há mais ou menos uns cinco anos, em Paris, e ouvi a Simone cantando “O que será” no final do filme... e me apaixonei. Depois fui descobrindo a música do Chico Buarque. É muito estranho como as pessoas não conhecem a música dele nos Estados Unidos: e ele é um gigante! Talvez isso aconteça porque ele não costume vir tocar muito por aqui."


FF - O público tem citado muito suas versões para temas do rock, como Exit Music [for a film], do Radiohead, e Blackbird, dos Beatles. O quanto próxima é sua relação com o rock?
"O que às vezes as pessoas não entendem é que eu, na realidade, nunca fiz ou me propus a tocar  rock, não é isso que faço, apesar de algumas vezes encontrar aí um tema que me seduza e me convide a tocá-lo. A única exceção é quando estou em casa, descontraído, daí posso botar um disco e fingir  ser Keith Richards ou Jimmy Page. Meus filhos se divertem muito com isso." 




(Brad Mehldau Trio – Festival Jazz Sur, 2005)