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terça-feira, 17 de novembro de 2009

O delicado dedilhado de Alice Coltrane

Piano, harpa, órgão, cânticos: o percurso de Alice Coltrane extrapolou o jazz rumo a suas crenças espirituais. A companheira de John Coltrane chegou a tocar com ele em seus últimos tempos de vida. Nesse período, seu piano refinado já podia ser escutado, apesar de receber o destaque que merecia apenas nos discos que apareceriam na virada dos 60s para os 70s.
A carreira de Alice (1937-2007) antecede seu encontro com Trane. Ainda no final da década de 50, quando assinava Alice McLeod, iniciou seu percurso. Em 59, mudou para Paris, onde estudou com Bud Powell. Depois, tocaria seu piano em parcerias com Terry Gibbs, Barry Harris e Yusef Lateef.

Um ano após a morte de Coltrane, Alice gravou Monastic Trio, o seu primeiro e melhor álbum. Fruto de sessões de estúdio feitas entre janeiro e junho de 68, “Monastic Trio” apresenta Alice em piano e harpa acompanhada de Jimmy Garrison, Pharoah Sanders, Ben Riley e Rashied Ali. Se seguiriam três outras pequenas joias: Huntington Ashram Monastery (69), Ptah the El Daoud (70) e Journey in Satchidananda (71). Nesses álbuns, Alice ainda mantinha sua verve jazzística bastante viva, tendo criado momentos sonoros admiráveis.
Ainda em 71 lançou "Universal Consciousness", álbum com o qual se aproximou do campo espiritual que a orientava: as cordas, que estariam presentes em muitos de seus trabalhos futuros, surgiram em destaque aqui. No decorrer dos 70s, aprofundaria seus estudos na cultura espiritual indiana, afastando-se do jazz e chegando a gravar trabalhos nos quais os cânticos indianos se tornaram peças centrais. "Radha-Krsna Nama Sankirtana" (76) e "Transcendence" (77) são testemunhos dessa nova etapa, em que assinava também seu nome religioso: Turiyasangitananda.
Tendo montado seu Vedanta Center, na Califórnia, na década de 70, se afastou das gravadoras e da cena musical: seus testemunhos sonoros nos anos 80 e 90 se resumem a fitas cassetes com cânticos gravados em seu retiro. Surpreendentemente, daria ainda um último respiro jazzístico, com o belo Translinear Light, de 2004.


Huntington Ashram Monastery, gravado em 14 de maio de 1969, apresenta Alice acompanhada de Ron Carter e Rashied Ali. Álbum delicado e profundo, mostra Alice alternando-se entre piano e harpa para criar seis composições próprias _nas quais o pouco usual dedilhado da harpa ecoa no etéreo soar de seu particular piano. Lançado em CD apenas no Japão, o disco tem se tornado uma raridade _uma cópia usada chega a custar US$ 120 na Amazon. “Huntington Ashram Monastery” é seu único disco gravado inteiramente em trio, dando a oportunidade de apreciar toda a sutileza de seu toque. Disco de difícil catalogação, é free e avant garde, mas nada agressivo (como costuma-se esperar desses estilos). Improvisação livre sim, mas com melodias marcantes e identificáveis, que não servem apenas de ponto de partida para devaneios solistas. Ron Carter ocupa papel relevante nesse aspecto, com seu baixo grooveado no qual gosta de repetir ciclicamente pequenos temas. Rashied Ali, contido ao extremo, mostra que a bateria free não se caracteriza apenas por pancadas duras, criando ambientação correta aos dedos sutis de Alice _que no lado A toca harpa e no B, piano.

A1 Huntington Ashram Monastery 5:30
A2 Turiya 4:16
A3 Paramahansa Lake 4:29
B1 Via Sivanandagar 6:03
B2 IHS 8:44
B3 Jaya Jaya Rama 6:25

*Alice Coltrane — harp, piano
*Ron Carter — bass
*Rashied Ali — drums