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sexta-feira, 10 de julho de 2009

A música livre de Ivo Perelman




O nome de Ivo Perelman ainda não ecoa como deveria por aqui, mesmo dentre os que afirmam apreciar música instrumental e jazz. Mas, após 20 anos de carreira e 30 álbuns editados, Ivo já não deve se preocupar muito com isso: na cena free jazzística internacional seu nome está cravado. Aos mais atentos, foi dada recentemente uma oportunidade de sentir ao vivo a música de Perelman que, inacreditavelmente, só foi tocar no Brasil pela primeira vez em 2006 e como convidado (!!!!) do violoncelista holandês Ernst Reijseger. Em 2008 retornou acompanhado de seu sax tenor, do antigo parceiro Dominic Duval (baixo) e da violinista Rosie Hertlein para apresentações no Masp e no Sesc. Como que o maior nome do jazz já produzido pelo Brasil nunca tocou em nenhum dos alardeados festivais nacionais dedicados a essa seara musical? Será que o cachê do Ivo é tão proibitivo assim? Com certeza não. Então porque festivais de envergadura internacional como os extintos Free Jazz, Chivas Jazz, Tim Festival e até mesmo o simpático Festival de Rio das Ostras nunca o convidaram? Não sei...

Antes mesmo de ser ignorado por aqui Ivo optou por tentar a cena musical dos EUA, na década de 80. Por lá, também encontrou obstáculos até que, em 89, prestes a botar o sax na mala e retornar para SP, após peregrinar por inúmeros hotéis e bares e ver seu visto perto de vencer, foi convidado para entrar em estúdio, gravar algo e ver no que dava. Acompanhado por músicos brasileiros como a pianista Eliane Elias e o casal Airto Moreira e Flora Purim, gravou o que se tornaria seu disco de estreia, IVO, que acabaria por chamar a atenção da crítica norte-americana, com direito a elogios do pessoal da Down Beat. A gravação permitiu a prorrogação do visto, novos contatos e a abertura do mundo jazzísitico. A fase inicial que encantou os norte-americanos, permeada de elementos sonoros brasileiros, não durou muito. Essa etapa de busca de uma síntese entre as linguagens musicais brasileira e jazzística não alcançou a envergadura almejada, como testemunha o próprio músico, e se estendeu por outros poucos trabalhos de sua extensa discografia, como “Children of Ibeji” (1992), que contou com Flora nos vocais e algumas figuras de proa do jazz livre, como o baixista Fred Hopkins e o pianista Paul Bley. Com esse perfil ‘verde e amarelo’ ainda sairia “Man of the Forest” (1994, participação de Naná Vasconcellos), “Soccer Land” (94) e “Tapega Songs” (96). Esses dois últimos, gravados no Brasil, foram relançados no ano passado por aqui pela Editio Princeps, com o título de “The Complete Ibeji Sessions”. Ainda em 96 Ivo lançou “Cama de Terra”, disco que marcaria o início de uma nova fase. Amparado apenas por Mathew Shipp no piano e William Parker no baixo (músicos bem conhecidos por sua longa colaboração com o gênio David S. Ware), o saxofonista redelimita seu espaço na cena free.

É nesse período que Perelman terá a oportunidade de gravar com uma das lendas do free jazz: o baterista Rashied Ali. Último músico a entrar em estúdio com John Coltrane, Ali é um dos mais criativos e radicais instrumentistas a surgir desde os 60. Conta Ivo que trombava com Rashied pelas ruas e bares do Brooklin novaiorquino, de bermuda e chinelo, e um dia resolveu falar com ele. O resultado desse encontro foram dois dos mais importantes trabalhos de Ivo: no formato de trio, que ainda contou com a colaboração de William Parker, saíram “Sad Life” (1996) e “Live” (1997). “Sad Life” é um de seus poucos discos que podem ser encontrados no país, distribuído pela Atração Fonográfica (menos de um terço de suas gravações está disponível nas prateleiras das lojas nacionais).

A discografia de Ivo foi cada vez mais sendo recheada de figuras de ponta da cena jazzística, o que ajuda a ilustrar a repercussão de seu sopro: no piano: Marilyn Crispell, Matthew Shipp, Paul Bley e Borah Bergman; no baixo: William Parker, Wilber Morris, Fred Hopkins e Dominic Duval; na bateria: Rashied Ali, Andrew Cyrille, Gerry Hemingway e Jay Rosen.

Um dos grandes momentos de Ivo está registrado no disco “Live”, gravado ao lado de Parker e Ali, na noite do dia 19 de junho de 1996, no Knitting Factory, em Nova York. Segundo Ivo, a gravação nem devia existir: foi um dos “ouvintes” que resolveu gravar a apresentação e depois ofereceu o tape aos músicos: 47:21 minutos de improvisação ininterrupta. É curioso notar que a gravação começa meio que do nada, após os músicos já terem iniciado o show. De qualquer forma, o material é fundamental e se tornou um dos poucos registros ao vivo do saxofonista. O disco, lançado pelo obscuro selo Zero In, está fora de catálogo há um bom tempo e dificilmente voltará às prateleiras:



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O som atual de Perelman não está tão agressivo como o reportado em “Live”. O compositor tem dado preferência para o trabalho com cordas, o que permite que o som de seu sax seja ouvido de forma mais límpida, sem disputar espaço com a percussão. Os últimos dois discos que lançou são duos com o baixista Dominic Duval, sendo bons exemplos da fase atual. “Nowhere to Hide”, o último rebento, chegou há pouco ao mercado internacional e está muito mais em diálogo com o que pudemos ver nas apresentações de Ivo no Masp e no Sesc, em SP, em maio de 2008.





“Nowhere to Hide”, como seu antecessor “Soul Calling”, pede uma escuta paciente e atenta. Outros trabalhos de Perelman com onipresença de cordas, como “The Alexander Suite” e “Sieiro”, mostravam uma face menos contemplativa que a atual. Porém, nessas mais recentes gravações podemos notar o quanto o diálogo entre ele e Duval atingiu um nível surpreendente: cordas e sopro livres, criando relações sonoras imprevistas e incomuns. Não perguntei para o músico se eles conversam antes das gravações e apresentações, se dedilham algum tema ou algo assim. Me parece que não. Provavelmente Duval seja o músico com quem Ivo melhor se relacionou durante todo esse tempo de estrada, o que permite que se percam em longas improvisações sem se repetirem ou terem de recorrer a melodias e temas que os reequilibrem antes de novas divagações. No novo disco, a faixa Amizade, a mais extensa, se alonga por aproximados 23 minutos sem que nos deparemos com insistentes retornos e retomadas de passagens: os músicos convocam os ouvintes a se perderem em um labirinto sonoro onde os caminhos podem se reencontrar, mas sem a função de facilitar a degustação dos sons que ecoam das cordas ao sax, do sopro ao dedilhado.

É curioso notar no meio das extensas improvisações algum tema (ou trecho de) que vaga rapidamente antes de se diluir em meio a sons nunca antes tocados. Lá pelos 15 minutos de Amizade, por exemplo, é possível identificar uma ligeira citação à clássica “Blue Monk”, do pianista Thelonious Monk. Esse tema é muito caro ao saxofonista, estando na arquitetura de seu único disco solo (“Blue Monk Variations”). Alternando momentos dedilhados e com arco, Duval se mostra o parceiro insubstituível para essa face sonora menos agressiva, mas não menos livre e intensa (cada vez mais parece que Ivo necessita de estruturas mínimas para deslizar seus improvisos).

Ouvi algumas pessoas dizerem, após as apresentações em terras paulistanas no ano passado, que esperavam mais barulho e agressividade do saxofonista. Esse caminho atual realmente demanda uma atenção mais acurada e reflexiva, não é bate e pronto. O que talvez tenha prejudicado um pouco para alguns a recepção de Perelman no Sesc foi o fato de o trio “Full Blast”, de Peter Brotzmann (aliás, uma das formações mais pesadas que já acompanharam o compositor alemão), ter tocado logo na sequência. Mas também houve quem, talvez mais seduzido pelo som atual de Perelman, acabou por se levantar e abandonar a apresentação de Brotzmann (quem sabe sem compreender ao certo a importância daquele senhor de som raivoso e cabelos grisalhos que estava no palco...).

Em maio, Perelman se apresentou em Portugal acompanhado do violoncelista Daniel Levin e do baixista sueco Torbjorn Zetterberg, dando continuidade à sua atual pesquisa de criação sonora. As apresentações vão render um cd duplo, programado para sair pela gravadora portuguesa Clean Feed no próximo ano. Ouçam o Ivo. Para quem se interessa por sons novos, não tem como errar. Discografia, imagens de suas telas (o cara também é pintor) e trechos de músicas podem ser encontrados no site dele: http://www.ivoperelman.com/