terça-feira, 21 de abril de 2020

Free Jazz: documentando a cena (I)






DOCs  Selecionamos diferentes documentários que abordam a cena free jazzística, filmes realizados em diversas épocas que registram e ajudam a preservar a memória  dessa música...  







Por Fabricio Vieira


Se o free jazz foi praticamente ignorado no famoso documentário "Jazz", de Ken Burns, outros diretores trataram de retratar a face mais radical do gênero. Diferentes registros têm ajudado a preservar a memória e a história do free jazz (e do free impro), formando já um painel relativamente extenso e abrangente desse universo sonoro. Fizemos um apanhado de diferentes documentários que, nas últimas décadas, investigaram o mundo da free music. São filmes realizados em diferentes formatos e países, alguns deles editados em DVD, outros disponíveis na íntegra no Youtube ou Vimeo, que podem ajudar a compreender um pouco mais essa seara sonora (infelizmente, pouco desse material tem legenda em português), sendo uma rica introdução à free music. Aqui selecionamos apenas filmes que tratam da cena: os docs biográficos, que se focam exclusivamente na história de um músico, serão destacados em um outro post...



    

"ORNETTE COLEMAN TRIO + SOUND??" (1966/67)
Dir.: Dick Fontaine

O diretor britânico Dick Fontaine realizou esses dois curtas nos anos de 1966/67. A história do “Ornette Coleman Trio” (lançado originalmente como “David, Moffett e Ornette”) é simples: Coleman estava em Paris para participar da criação da trilha sonora do filme “Who’s Crazy” (depois editada em CD). E Fontaine aproveitou para fazer um pequeno documentário sobre o trabalho, com declarações dos músicos alternando-se com cenas deles em ação no estúdio e em ensaios. O saxofonista estava acompanhado por seu trio à época, o baixista David Izenzon e o baterista Charles Moffett. Além do sax, Coleman aparece tocando trompete, violino e dedilhando um piano. Afora o prazer de ver Ornette em ação, há um segundo curta, da mesma época, que costuma ser lançado junto: “Sound??”, peça que reúne John Cage (1912-1992) e Rahsaan Roland Kirk (1936-1977). Mas os músicos nunca estão em cena juntos. O que Fontaine faz é colocar Cage para expor suas ideias sobre as relações entre som e silêncio, enquanto imagens de Roland Kirk tocando em vários contextos surgem na tela. E o resultado é realmente complexo e instigante. Os dois curtas foram lançados em DVD no Brasil em 2010.







IMAGINE THE SOUND” (1981)
Dir.: Ron Mann

Documentário pioneiro no registro do universo do free jazz, Imagine the Sound foca sua câmera em quatro destacadas figuras do gênero: Cecil Taylor, Archie Shepp, Paul Bley e Bill Dixon. Entre entrevistas e apresentações, o filme exibe um pouco da arte desses pioneiros – protagonistas do ápice do free jazz em meados dos anos 1960 – e ajuda a construir uma narrativa muito pouco documentada em vídeo até aquele momento. Os quatro músicos foram convidados a criar novas peças para o filme; Taylor, por exemplo, apresenta uma de suas intensas criações solistas, além de aparecer recitando seus intrigantes poemas, que havia passado a escrever de forma mais constante exatamente na época em que o filme foi realizado. Após longo período fora de catálogo, foi reeditado em DVD em 2007.







RISING TONES CROSS” (1985)
Dir.: Ebba Jahn

O pano de fundo deste filme é o Sound Unity Festival – precursor do icônico Vision Festival, organizado por William Parker e Patricia Nicholson –, realizado em Nova York em 1984, que reuniu grandes nomes do free europeu e dos EUA (Peter Brotzmann, Rashied Ali, Jemeel Moondoc, Don Cherry, Irène Schweizer, Dennis Charles, Marilyn Crispell, Charles Tyler, Roy Campbell Jr., David S. Ware, Frank Wright, Jeane Lee...). Mas quem polariza mesmo o documentário são duas figuras: o baixista alemão Peter Kowald (1944-2001) e o saxofonista Charles Gayle. São eles que concentram as entrevistas e aparecem em ação juntos em diferentes contextos. Com Kowald e Gayle, o diretor Ebba Jahn demarca dois extremos: o músico europeu já reconhecido e respeitado no universo do free, que passava uma temporada nos EUA; e o saxofonista outsider norte-americano, à margem dentro da própria marginalizada cena – Gayle, então com 45 anos, nunca tinha lançado um disco, o que levaria ainda alguns anos para acontecer. Disponível em DVD.









ON THE EDGE: Improvisation in Music” (1992)
Dir.: Jeremy Marr

Escrito e narrado pelo guitarrista Derek Bailey, este documentário sobre improvisação foi produzido para a TV britânica. Dividido em quatro partes (“Passing It On”, “Movements in Time”, “A Liberation Thing” e “Nothin’ Premeditated”) com cerca de 50 minutos cada, foi apresentado pelo Channel 4 no começo de 1992. Partindo do livro “Improvisation: Its Nature and Practice”, do próprio Bailey, o documentário aborda a improvisação em suas mais variadas formas, tanto na música ocidental quanto oriental. No longo panorama apresentado, podemos assistir em ação, tocando e expondo suas ideias, alguns dos expoentes do universo do free: Butch Morris, Steve Noble, George Lewis, Alex Ward, Douglas Ewart, John Zorn... Mas a viagem é bem mais ampla que o mundo do free; encontramos músicos das mais variadas origens e perspectivas lidando com a liberdade criacional e interpretativa, sem preconceitos, apenas música viva.






INSIDE OUT IN THE OPEN” (2001)
Dir.: Alan Roth

Com o subtítulo “An Expressionist Journey into the World Known as Free Jazz”, o diretor Alan Routh não deixa dúvidas sobre sua intenção ao realizar este documentário. E para essa jornada no mundo do free jazz, ele convocou figuras destacadas dos tempos primeiros do gênero: Joseph Jarman, Alan Silva, Burton Greene, Baikida Carroll, Roswell Rud e os já falecidos Marion Brown (1931-2010) e John Tchicai (1936-2012). Há também a participação de gerações mais novas no filme, dentre os quais Matthew Shipp, Susie Ibarra e William Parker. Alternando depoimentos e passagens de concertos (a maioria captado nos anos 90), Inside Out in the Open busca falar do free jazz de ontem e de hoje, num panorama relativamente rápido (afinal, são cinco décadas de gênero para cerca de 60 minutos de filme), mas envolvente. Uma boa introdução a essa música vital. Lançado em DVD e Blu-ray pelo selo ESP-Disk.






NOISY PEOPLE” (2007)
Dir.: Tim Perkis

Interessante documentário que busca retratar a improvisação livre destacando nomes que não estão entre as estrelas do gênero, como é mais comum ocorrer nesse tipo de filme. Focado na Bay Area, em San Francisco, Tim Perkis destaca sete artistas locais que, apesar de já terem razoável trajetória artística, talvez sejam menos lembrados e reconhecidos, como os baixistas Damon Smith e George Cremasch, o trompetista Tom Djll e o saxofonista Dan Plonsey. Essa proposta de dar voz a figuras que costumam aparecer menos oferece um frescor extra ao documentário. Há algumas rápidas aparições ilustres, como a de Anthony Braxton – na parte dedicada a Plonsey, que já gravou com o mestre –, mas o foco está totalmente nos outros instrumentistas. Um filme sobre quem ajuda a fermentar a cena, mesmo que de forma mais discreta.







AMPLIFIED GESTURE” (2009)
Dir.: Phil Hopkins

Seguindo a linha do que o subtítulo do documentário promete (“An Introduction to Free Improvisation: Practicioners and their Philosophy”), o diretor Phil Hopkins entrevistou nomes destacados da improvisação livre para compor esse painel. Preferindo se focar no que cada músico ouvido tinha a dizer – deixando de lado a manjada fórmula de mostrar partes de shows entre as entrevistas –, Hopkins apresenta uma variedade de perspectivas no fazer improvisativo. Passam por sua câmera algumas autoridades no assunto: Evan Parker, Eddie Prévost, Otomo Yoshihide, John Butcher, Keith Rowe, John Tilbury, dentre outros. Um documentário que nos ajuda a pensar o quanto a improvisação livre pode ser (e é) complexa: de gratuito, não há nada aqui.







FREE THE JAZZ” (2014)
Dir.: Czaban Gyorgy

Este filme realizado na Hungria se estrutura de forma mais esquemática, intercalando entrevistas e trechos de shows. O diretor Czaban Gyorgy aproveitou a passagem de alguns dos nomes mais fortes da cena contemporânea pelo seu país (Matthew Shipp, Mats Gustafsson, Ken Vandermark, Paal Nilssen-Love, Joe McPhee...) para colher o material que utilizou no documentário. Peter Brötzmann é quem ganha destaque um pouco maior, abrindo e encerrando o filme. Interessante vê-lo falando o que pensa sobre o free e se colocando como “apenas um músico de jazz”. Em sua fala final, diz Brötzmann: “Penso que o conceito de free jazz teve sentido por um curto período nos anos 60... Usar o termo hoje pode gerar mal-entendido. Neste mundo, nada é free. E nas últimas décadas, desenvolvemos formas e estruturas nas quais a liberdade tem uma diferente pegada do que era feito nos anos 60”.







TAKING THE DOG FOR A WALK” (2014)
Dir.: Antoine Prum

O diretor de Luxemburgo Antoine Prum, que anteriormente realizou “Sunny’s Time Now”, sobre o baterista Sunny Murray, apresenta neste seu documentário a cena free impro britânica. Para compor este painel, que fala desde os inícios da cena nos anos 60 até as manifestações atuais, Prum entrevistou figuras centrais do Reino Unido, como Phil Minton, John Edwards, Maggie Nichols, Eddie Prévost, John Russell, Roger Turner e Trevor Watts, além de recorrer a imagens de shows. Nesta jornada, Prum é auxiliado pelo saxofonista Tony Bevan e pelo comediante/diretor Stewart Lee, que conversam com os músicos e percorrem a cena. O filme foi exibido no Brasil durante o festival In-Edit de 2015. Editado em DVD duplo com extras e um CD bônus.







FIRE MUSIC” (2018)
Dir.: Tom Surgal

Mais recente documentário a abordar a cena free jazzística, Fire Music: A History of the Free Jazz Revolution levou vários anos para ficar pronto. Em 2014, já com diferentes entrevistas realizadas, os produtores iniciaram uma campanha colaborativa para levantar recursos para finalizar o filme, que só estrearia em 2018. Com produção executiva de Thurston Moore e Nels Cline, esse documentário se arquiteta a partir de umas duas dúzias de entrevistas realizadas com músicos do meio – Gunter Hampel, Bobby Bradford, Burton Greene, Sonny Simmons, Oliver Lake, Noah Howard e John Tchicai (esses dois últimos, já falecidos) foram alguns dos ouvidos – e imagens de shows e arquivos, mantendo o foco na cena de Nova York e destacando histórias do “período de ouro” do free jazz, na década de 1960.







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*quem assina:

Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Colaborou também com publicações como Entre Livros, Zumbido e Jazz.pt. Atualmente escreve sobre música e literatura para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records), e “Live in Nuremberg”, de Perelman e Matthew Shipp (SMP Records)

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