terça-feira, 1 de maio de 2018

MACHINE GUN: 50 anos de um clássico






CRÍTICAs  Há exatamente cinco décadas, Peter Brötzmann registrava sua obra-prima e uma das mais importantes gravações da free music: nascia Machine Gun...






Por Fabricio Vieira

O ano de 1968 pode ser lembrado por múltiplos eventos que marcaram o mundo, sacudindo e implodindo barreiras de um lado, suprimindo direitos e levando destruição de outro. No Brasil, a ditadura militar apertava o cerco com a promulgação do AI 5, que significou o mais duro golpe na democracia nacional. Também é o ano em que Martin Luther King Jr. acaba assassinado. A França adentrava uma onda de protestos iniciados com  manifestações estudantis que desembocaram em uma greve geral gigantesca, deixando abalado o governo De Gaulle. A Primavera de Praga, que acabou duramente reprimida pela URSS, agitava a Tchecoslováquia com anseios por mudanças políticas e sociais. Houve ainda o massacre de My Lai, quando o exército dos Estados Unidos comandou, em uma aldeia de camponeses, a maior matança de civis durante a Guerra do Vietnã...
Foi ainda naquele ano, mais precisamente em maio de 1968, que o saxofonista alemão Peter Brötzmann entrou em estúdio com seu octeto para criar uma das peças seminais do free europeu: Machine Gun.

Provavelmente Peter Brötzmann, então com apenas 27 anos, não imaginava que levava um dream team ao club Lila Eule, em Bremen (Alemanha), em meados de maio de 1968: estava acompanhado de alguns dos futuros mais importantes nomes do free europeu para gravar sua nova peça. A seu lado estavam nada menos que os saxofonistas Evan Parker e  Willem Breuker (1944-2010); os bateristas  Han Bennink e Sven-Ake Johansson; os baixistas Peter Kowald (1944-2002) e Buschi Niebergall (1938-1990); e o pianista Fred Van Hove – este, o "veterano" do grupo, isso tendo somente 31 anos à época. Daquela data (vale notar que a maioria das edições se refere apenas ao mês de maio, como se houvesse dúvidas sobre o dia exato da sessão; há versão em CD que afirma que a gravação ocorreu no dia 28; e Brötzmann diz que as gravações ocuparam dois dias naquele maio...) existem cinco registros, tendo sido executados três temas: Machine Gun (em duas versões), Responsible (também duas versões) e Music for Han Bennink. O disco é considerado um marco na libertação do free europeu da influência norte-americana – e é mesmo um registro "europeu", sendo os instrumentistas representantes de cinco países: Alemanha, Holanda, Bélgica, Suécia e Inglaterra. Inegáveis são as referências estruturais de combos como os que gravaram anos antes "Free Jazz", comandado por Ornette Coleman em 1960, e "Ascension", conduzido por John Coltrane em 1965; mas inegável também é o novo aqui, que abriu ouvidos a caminhos ainda inexplorados.

Machine Gun é o segundo álbum que Brötzmann lançou sob sua assinatura, tendo sido precedido pela sua estreia com For Adolphe Sax, gravado no ano anterior. A primeira edição de Machine Gun saiu pelo selo independente que o saxofonista havia criado, o BRÖ, por meio do qual lançou também seu registro inaugural. Ao que parece, apenas cerca de 300 cópias (alguns falam em até 500) foram prensadas da primeira versão de Machine Gun, que existe com três capas distintas. A maioria dos exemplares de 1968 vem com a capa original, estampada com uma serigrafia de Brötzmann que traz dois soldados com uma metralhadora, pintada em laranja sobre um fundo branco com a descrição ma-chine' gun automatic gun for fast, continuous firing. Conta-se que o número de capas impressas foi menor que o número de discos prensados, o que originou as outras duas não planejadas versões: uma simplesmente com uma capa inteiramente em branco, com o disco dentro; e a outra, considerada a mais rara de todas, com o título do álbum e a contracapa feitas/escritas à mão por Brötzmann com canetas coloridas.         
Com certeza, em uma época sem internet e outras facilidades digitais, o disco foi ouvido por relativamente pouca gente em seus primeiros anos de existência. Em 1972, esse leque de ouvintes se ampliaria com uma nova edição, desta vez mais profissional. O mítico selo alemão FMP (Free Music Production), fundado por Jost Gebers com a participação do próprio Brötzmann em 69, levaria adiante a empreitada de reeditar o clássico álbum. Esta segunda edição de Machine Gun era similar à primeira, trazendo a faixa-título do lado A, e "Responsible" e "Music for Han Bennink" no lado B. 
Já a primeira versão em CD demoraria mais tempo para aparecer. Isso aconteceu apenas em 1990, mas a espera valeu: a edição trazia novidades para os fãs. Pela primeira vez era possível ouvir versões adicionais das faixas "Machine Gun" e "Responsible" (que agora trazia o subtítulo "For Jan De Ven"). Agora os ouvintes que conheciam o disco há cerca de duas décadas se deparavam com versões diferentes que, se mantinham a base do que era conhecido, variavam cada uma em cerca de dois minutos, ou seja, traziam elementos outros para serem apreciados/explorados. Havia ainda uma curiosidade: as versões de "Machine Gun" traziam as inscrições "second take" e "third take", gerando especulações sobre uma "first take" perdida (que infelizmente nunca apareceu... ou será que a "first" se refere à gravação ao vivo do tema feita dois meses antes da em estúdio?).
Antecipando a celebração dos 40 anos da obra, apareceu, em 2007, uma edição comemorativa em CD chamada "The Complete Machine Gun Sessions". Infelizmente esta edição, lançada pela Atavistic, não trazia nada de novo: em relação à de 1990, a única novidade era uma versão ao vivo de Machine Gun, captada em 24 de março de 1968, no Frankfurt Jazz Festival, mas esta peça já havia aparecido anteriormente no disco "Fuck the Boere". Chama a atenção a capa nova, com uma outra serigrafia de Brötz com um soldado e uma metralhadora, feita na época da gravação do álbum. Em 2011, o selo Slowboy colocaria de novo uma versão em LP (como a original) no mercado. E neste mês, na comemoração dos 50 anos de Machine Gun, a Cien Fuegos/Trost Records lança dois LPs: um contendo a versão original e outro com os dois "extras" que apareceram no CD de 1990.  

No referencial "The Penguin Guide to Jazz", Machine Gun recebeu as quatro estrelas máximas e a coroa com a qual são destacados os álbuns obrigatórios. Lá, os autores Brian Morton e Richard Cook escrevem: "Machine Gun is one of the most significant documents of the European free jazz underground. Whenever we return to it, the power of this amazing record seems as potent as ever". A perenidade da força e do impacto de Machine Gun faz dela uma indiscutível obra-prima ou, na acepção do crítico e escritor italiano Italo Calvino, um clássico. Em seu conhecido ensaio “Por que ler os clássicos”, Calvino pontua os motivos que fazem com que leitores e críticos considerem certas obras como “clássicas”, peças que nunca envelhecem ou deixam de surpreender. Dentre as diferentes definições de clássico elencadas por Calvino (ele fala particularmente de livros, mas podemos levar suas ideias à música facilmente), vale destacar ao menos três que bem definem Machine Gun:
1) Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos;
2) Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer;
3) Toda releitura de um clássico é a uma leitura de descoberta como a primeira;

Quem colocar agora Machine Gun para tocar, independentemente de ser a primeira ou a centésima vez que faz isso, verá à sua frente sem esforço brilharem as teses de Calvino. Nunca deixa de ser arrepiante ouvir o power riff que explode dos sopros abrindo a faixa-título, com Brötzmann, Parker e Breuker em uma rajada em uníssono que poderia derrubar um avião (e o impacto podia ser maior: eram para ser quatro saxofonistas, com a participação também de Gerd Dudek, que esteve na versão ao vivo, mas não pôde comparecer ao estúdio).
Essa paulada criada por Brötzmann é como que se traduzisse o título da peça e enviasse um recado a Don Cherry, que apelidou o saxofonista de Machine Gun pelo seu jeito de tocar, isso quando se conheceram lá por 1966 (e é daí que vem o título do trabalho, segundo o próprio músico, que costuma minimizar interpretações como "ele se referia às barbaridades da guerra")...
A concepção geral do trabalho é sem dúvida de Brötzmann (tanto que o álbum é creditado a "The Peter Brötzmann Octet"), mas apenas a faixa-título é de sua autoria. "Responsible" é assinada por Fred Van Hove e "Music for Han Bennink" (que traz o solo mais demolidor de Brötzmann), por  Willem Breuker, mas nada que atrapalhe a perfeita coesão e coerência interna que marcam o trabalho.
Se uma das diferenças primárias do free para o rock (e outras músicas populares) é exatamente a não repetição/execução de um trabalho ao vivo (claro que há exceções), é de se lamentar que Machine Gun não volte (ou nunca tenha voltado) a ser tocada em um palco. A versão gravada ao vivo de Machine Gun que conhecemos foi feita inclusive dois meses antes do registro em estúdio, como se fosse uma preparação para a peça final. Apesar de Brötzmann e seus companheiros nessa empreitada serem centralmente free improvisers, Machine Gun é uma peça com partes compostas, planejada em sua estrutura e desenvolvimento (em meio a explorações improvisatórias): note-se que a versão original, com seus 17m19, é bem próxima da versão ao vivo, que conta com 17m40. A terceira versão, que apareceu em CD, pode ser menor, com seus cerca de 15 minutos, mas mantém a estrutura-base.

Em relação à sua forma de encarar a obra, disse Brötzmann em entrevista à Time Out, em 2011:
"I mean Machine Gun is a very structured thing, from the beginning to the end. It's really in a way very traditional: It starts with a figure; it goes on with a Charles Ives theme; it comes at the end to some rock & roll figure. And in between, the solo stuff. So it's nothing very avant-garde; it's a very normal kind of piece".
Para quem a princípio pense, ouvindo a peça, nas palavras free impro, avant-garde e afins, a fala de Brötz pode bagunçar as ideias... Mas escutando a peça com calma, suas estruturas se clarificam: logo após o ataque inicial que abre Machine Gun, que dura menos de um minuto, o sax tenor emerge soando como se narrasse algo com relativa calma, por sobre uma base quase melódica do piano; seu discurso vai sendo interrompido por curtos ataques virulentos dos outros sopros e baterias, em um processo que se repete oito vezes, cada vez mais agressivas, até desembocar em um breve solo de piano. Esse processo está presente nas três versões (ao vivo o solo de piano é atropelado) e se fosse ser executada hoje esperaríamos, conscientes ou não, que seus aproximados quatro minutos iniciais rumassem por aí. É interessante notar também como se forma a parte final da peça, quando em seus cerca de últimos dois minutos surge um tema tocado pelos sopros (que atravessa o solo de Brötzmann) que não renega suas referências jazzísticas, quase irônico (kill the fathers?!), antes de mergulhar na cacofonia do último minuto que leva à retomada do ataque inicial, à artilharia que abre (e agora encerra) a faixa. Machine Gun é uma obra de força única, um registro que marca um momento iluminado da free music, desses que se repetem apenas de tempos em tempos.



"Machine Gun of course was done in '68, which was a very revolutionary time here in Europe and in USA, too. The Vietnam War was on its way, and here in Europe, we had our student things, because we wanted another republic and so on, we followed very much Malcolm X and Angela Davis, and so on. It was a time for change, and naive as we had been in these years, we thought music would be a tool for changing things. And of course we had to learn that that was a kind of illusion. I mean, I still think that you can change things, or at least you can change and open up people's minds with the music, but for a political change, it was not a strong enough tool, I would say." (Peter Brötzmann)






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*quem assina:
Fabricio Vieira é jornalista e fez mestrado em Literatura e Crítica Literária. Escreveu sobre jazz para a Folha de S.Paulo por alguns anos; foi ainda correspondente do jornal em Buenos Aires. Atualmente escreve sobre livros e jazz para o Valor Econômico. É autor de liner notes para os álbuns “Sustain and Run”, de Roscoe Mitchell (Selo Sesc), e “The Hour of the Star”, de Ivo Perelman (Leo Records)

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